Há um sentimento em comum entre os analistas políticos com relação às eleições deste ano: a percepção de que boa parte dos eleitores está desencantada com a política e se mostra disposta não só a não pensar em política como também a não comparecer às urnas para votar.
“Ninguém está falando de política”, diz o professor da FGV Jairo Nicolau para acrescentar: talvez porque as pessoas entendam que “todos os candidatos são iguais” e que “a política não faz diferença na vida” delas. O professor chega a achar que as eleições do próximo domingo (4) vão ter recorde de abstenções.
Pesquisa conduzida pelo cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Escola de Sociologia Política (Fesp-SP), que entrevistou 1,5 mil pessoas, corrobora essa percepção ao apurar que o eleitorado é “cada vez mais orientado pela rejeição ao adversário e, em muitos casos, por uma relação fria ou desencantada com a política”.
“Essa transformação da negatividade em um dos principais balizadores do voto gera desalento e pode enfraquecer a representatividade democrática”, conclui.
Várias são as causas que podem estar provocando o crescimento da apatia do eleitorado.
Entre essas certamente estão a desconfiança com relação aos partidos políticos (73% dos pesquisados em um painel realizado pela Universidade Federal do Paraná revelam não ter simpatia por qualquer um dos atuais partidos políticos) e a decepção generalizada com relação ao sistema político que se mostra incapaz de dar respostas rápidas e eficazes às necessidades da população, além do fato de seus atores estarem frequentemente envolvidos nos escândalos de corrupção que são denunciados quase que diariamente. Resumindo: é o crescimento do que pode ser definido como “a desilusão com tudo isso que está aí”.
Certamente contribuem para isso o cansaço com a polarização política que se repete já na terceira eleição presidencial seguida, desde 2018, refletida na rejeição, acima de 50%, dos principais candidatos, e o bate-boca que isso provoca nas redes sociais, nos grupos de amigos e no meio familiar.
Pesquisa da Fesp-SP, publicada pela “Veja”, concluiu que a quantidade de desiludidos com a política está aumentando no Brasil, chegando a 41% dos pesquisados em 2026, nove pontos percentuais a mais que o resultado de duas décadas atrás. Isso se reflete na quantidade de eleitores que deixam de ir às urnas, que foi de 22% em 2022, o maior índice de abstenção das eleições presidenciais brasileiras.
Essa constatação nos remete, entretanto, a outra reflexão, a que trata da importância do voto para fortalecimento do sistema democrático. Afinal, “a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras formas que já foram tentadas” como revela a frase atribuída a Churchil. Mesmo com todas as suas imperfeições, a democracia é mais justa do que qualquer outro regime, como as ditaduras e as tiranias.
E se é assim, e como a eleição é o momento mais importante do sistema democrático por ser aquele no qual o cidadão exerce o seu direito de escolher os seus representantes, fica a conclamação a todos para que compareçam às urnas no próximo domingo.
Com relação ao voto, registro mais uma observação: dê importância não só à escolha do candidato a presidente da República e a governador do Estado (que são cargos do Executivo e cuja eleição desperta maior atenção) como também ao voto a ser dado aos senadores (em dois candidatos pois são duas as vagas a serem preenchidas) e aos deputados federal e estadual, pois são eles que vão aprovar as leis que deverão ser obedecidas pelos ocupantes dos cargos executivos.
É importante lembrar que os senadores e os deputados têm assumido cada vez mais um papel relevante na política brasileira por serem os autores das emendas parlamentares que, neste ano, somam mais de R$ 60 bilhões. Além disso, caberá ao Senado Federal aprovar a indicação de quatro novos ministros do STF que, no próximo quadriênio, ocuparão as vagas dos que estão prestes a se aposentar.
Fica, então, registrada a nossa conclamação a todos os leitores-eleitores: conscientes das nossas responsabilidades, vamos, com responsabilidade, participar das eleições do próximo domingo e cumprir o nosso dever como cidadãos brasileiros que, apesar de todos os pesares, acreditam ser possível sonhar com um país melhor para os nossos filhos, e para os filhos dos nossos filhos.