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Memória

60 anos do golpe de 64: os militares no poder

Aniversário traz, para os brasileiros, a oportunidade de refletir sobre o valor da democracia e da liberdade em contraposição ao autoritarismo que leva à ditadura

Publicado em 29 de Março de 2024 às 01:30

Públicado em 

29 mar 2024 às 01:30
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Quando João Goulart decidiu convocar “o povo brasileiro” para um grande comício na frente da Central do Brasil, no Rio, para lá anunciar a desapropriação das terras próximas às rodovias federais para fazer uma megarreforma agrária, ele provocou a faísca que fez desencadear o movimento militar que derrubou o seu governo.
Houve outros acontecimentos que motivaram o golpe militar como o apoio de Jango aos oficiais amotinados da Marinha – avalizando a insubordinação nas Forças Armadas –, mas foi o comício da Central, realizado ao lado do Ministério da Guerra no dia 13 de março de 1964, que fez o General Olympio Mourão Filho, 15 dias depois, sair de Juiz de Fora em direção ao Rio de Janeiro com as tropas da 4ª Região Militar.
Elio Gaspari descreve com precisão, no livro “A ditadura envergonhada”, o clima político da época ao informar que havia um “golpe de esquerda em curso” apoiado no “dispositivo militar” que Jango pensava ter e nas bases sindicais que multiplicavam as greves e compunham a claque que o aplaudiu no comício da Central. Eram, como conta Gaspari, os “dois golpes”, o “de Jango” que “se destinava a mantê-lo no poder” e “o outro” que se destinava “a pô-lo para fora”.
No seu livro “Bis + Cinco – artigos e crônicas falando sério” (2009), Cariê Lindenberg conta um episódio que confirma a tese dos dois golpes em curso. Ele narra conversa que teve com Jango, de quem se aproximou em decorrência da amizade dele com o seu pai, Carlos Lindenberg, ocorrida em um fim de semana em Vitória, pouco antes do 31 de março: “Quando lhe perguntei com franqueza, na intimidade que ele permitia, se não tinha medo de sofrer um golpe, ele retrucou: ‘Eu também posso dar um antes deles, né?’”
Os capixabas acompanharam a deposição de Jango pelo radinho de pilha. Os sindicalistas chegaram a se reunir ao lado do Palácio Anchieta para cobrar uma posição do governador da época, Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, em favor de Jango, mas ele, prudentemente, preferiu aguardar o desenrolar dos acontecimentos longe dos pronunciamentos públicos.
Os portuários ainda interromperam o trânsito na avenida Getúlio Vargas, com toros de madeira destinados à exportação, mas a reação parou aí. Duas pequenas bancas que, na Praça Oito, vendiam revistas e livros favoráveis às reformas de base de Jango amanheceram incendiadas no dia 1º de abril de 1964.
Brizola, cunhado de Jango e deputado federal pelo Estado da Guanabara, ainda tentou liderar uma reação a partir da “cadeia da legalidade”, de emissoras de rádio, liderada pela Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, de onde chegou a cobrar a adesão do General Frota, deputado estadual do Espírito Santo (“General Frota, assuma o comando de nossas forças no Espírito Santo”, como contou Antonio de Padua Gurgel em texto de 2008, citado pelo professor Ueber José de Oliveira).
Mas até o General Frota perfilou, horas depois, entre os políticos do Espírito Santo que, como se manifestou em nota o governador Chiquinho, no dia 3 de abril, se postaram ao lado “das instituições democráticas, para o que conta com a colaboração das forças militares aqui sediadas, na forma dos entendimentos mantidos (...) e na proteção de Deus e da virgem da Penha”. Como escreveu Gaspari, “o Exército dormiu janguista” e “acordou revolucionário”, assim como a maior parte da classe política brasileira.
Protesto no Rio de Janeiro em 1968, durante a ditadura militar
Protesto no Rio de Janeiro em 1968, durante a ditadura militar Crédito: Arquivo Nacional
O restante da história dos governos militares já é por demais conhecida. Escolhido pelo Congresso Nacional de forma indireta como presidente da República, Castello Branco deu início a uma sequência de presidentes militares no período 1964-1985, com governos nos quais predominou a ausência do estado democrático de direito: centenas de cassações de mandato e prisões de opositores, a prática de tortura e da censura, a extinção dos partidos políticos, o fim das eleições para presidente da República, governador de Estado e prefeito das capitais, os atos institucionais, os recessos no Congresso e no STF, o fim dos habeas corpus.
O aniversário de 60 anos do golpe militar traz, para os brasileiros, a oportunidade de refletir sobre o valor da democracia e da liberdade em contraposição ao autoritarismo que leva à ditadura. Trata-se de uma reflexão indispensável nesses tempos em que ainda há quem – como comprovam as investigações ainda em curso na Polícia Federal – diz ter saudades desse período obscuro e tenebroso da nossa história.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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