Em todos os fazeres humanos é possível servir à ética e ao humanismo. Celebramos ontem – 8 de janeiro – o Dia Nacional do Fotógrafo.
Em razão do transcurso dessa data, desejo homenagear, no artigo de hoje, um fotógrafo que fez de sua arte um instrumento de defesa da ética e de serviço ao humanismo.
Refiro-me a Sebastião Salgado, fotógrafo de fama internacional que nasceu no Espírito Santo, na cidade de Baixo Guandu, próxima da fronteira do Espírito Santo com Minas Gerais. O registro civil de Sebastião Salgado foi feito em Aimorés, motivo pelo qual muitas biografias afirmam que ele é mineiro, quando, na verdade, é capixaba.
Também tenho em minha biografia uma glória particular. Exerci, durante algum tempo, a judicatura na Comarca de Baixo Guandu. Glória superior a esta somente a de ter sido juiz em Cachoeiro de Itapemirim.
A questão da fronteira entre Espírito Santo e Minas Gerais não se limita a uma discussão territorial. Também há uma disputa de glória. Mineiros e capixabas querem para si a honra de ser o berço natal do grande Sebastião Salgado.
A Universidade Federal do Espírito Santo tem o privilégio de ter o artista entre seus ex-alunos. Em nossa Ufes, Sebastião Salgado fez o curso de Economia. Esses estudos contribuíram para sua visão de artista. Não existe arte neutra. O artista sempre toma partido, por uma concepção de arte libertadora ou de arte neutra, que serve à manutenção do status quo.
Num ato de Justiça, a Ufes concedeu ao ex-aluno o título de Doutor Honoris Causa.
Além de exímio artista, Sebastião Salgado fez da fotografia instrumento de afirmação de valores humanistas e de denúncia de tudo aquilo que agride a dignidade humana. Cito algumas de suas obras inspiradas nessa direção:
a) documentou fotograficamente a seca no Norte da África, num trabalho realizado em colaboração com a ONG “Médicos sem Fronteiras”;
b) também documentou, com a cooperação Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), o drama de crianças vitimadas pela fome, em várias partes do mundo;
c) testemunhou através da fotografia os grandes flagelos que vitimam multidões empobrecidas: trabalhadores sem terra, migrantes, refugiados;
d) produziu grandioso documentário sobre o desalojamento em massa de hordas de seres humanos.
Salgado tinha consciência de que sua arte estava ligada a sua condição de brasileiro. Declarou numa entrevista: “Venho de um país subdesenvolvido onde os problemas sociais são muito intensos. E assim torna-se inevitável que as minhas fotos reflitam isso. Creio que exista uma forma latino-americana de ver o mundo.”
Sebastião Salgado orgulha-se de ser capixaba. Orgulhemo-nos de ter Sebastião Salgado como um dos grandes vultos de nosso torrão.