O velho batuque de fevereiro está aqui, vivo no peito. Vitórias, Rios, Bahias desfilam em mim com seus surdos, repiques e cuícas me chamando pra roda de bamba, pros giros do afoxé e os pés juntos do samba miudinho. É a mesma e renovada alegria de tantos anos como anfitrião, convidado e penetra da folia. Tem esse pulso que me mantém, nobre leitor.
E tem um outro que agora me atormenta, atravessa meu samba num diapasão torto. Meu coração se reparte entre o contentamento festeiro e a dor trazida pelos ventos das Gerais, por Brumadinho e sua gente vitimada por crime ambiental dos mais cruéis e irresponsáveis. A alegria se intimida ao pousar os olhos sobre as imagens na TV. Quem lá está diz que as imagens são perfumaria comparado ao que é visto in loco.
Desvio a atenção para a menina de cinco anos, minha afilhada, que lê pela primeira vez um poema pra mim. É Cecília Meireles na voz tímida da guria a me trazer aquela lágrima de canto de olho. Emoção pelo ineditismo da vida se descortinando em poesia diante do padrinho. Choro e misturo a essas lágrimas amorosas as de compaixão pelas mães, pais, filhos e animais vítimas do horror, vidas enterradas na lama – o lixo tóxico, mais uma vez, ganha a parada.
A poesia da menina me mantém de pé em contraponto à descrença de que o seu futuro possa ser saudável ao assistir a proliferação assassina de homens sem empatia e sanidade. Na crônica escrita em 2015, depois do crime em Mariana e no nosso Rio Doce, alertava para o descaso com o semelhante: “choramos pelo desdém público e privado, ninguém quer saber, danem-se, sejam infelizes para sempre. E tudo será esquecido”.
Assim foi. Perderam a memória porque não se importam se mais tragédias virão, sobretudo porque temos um presidente que prometeu acabar com o que chamou de indústria das multas ambientais e acusa fiscais de abusar da autoridade. O abuso, pelo visto, mister president, vem de outras searas, onde Vale quanto pesa a consciência com suas toneladas de indiferença.
Meu samba se cala e dá lugar à melodia inaudível dos que já não podem gritar. Sob a lama, o silêncio dos inocentes.