É meio difícil escolher um tema para uma coluna sobre segurança pública no domingo de Páscoa. Deveria ser sobre redenção, mas inclusive já andei gastando antecipadamente a janela para falar sobre as saidinhas. Por outro lado, surge uma notícia tristemente comum: dois menores, aparentemente envolvidos no tráfico de drogas, acabaram perdendo a vida em um confronto com a PM ao atirarem contra os policiais.
Infelizmente, apesar de todo o esforço e sofrimento dos pais, o tráfico atrai tanto consumidores quanto soldados antes mesmo que esses adolescentes tenham real consciência daquilo em que estão se metendo. E a imaturidade reflete também em maior agressividade, menor autocontrole e atitudes completamente burras, como a de resistir à polícia à bala. Tragédia pura, mas cotidiana e previsível, famílias desesperadas e o Estado pouco pode fazer, ao menos da maneira como tem tentado.
Veja-se que os parentes de um deles, ao descobrirem o que estava acontecendo, procuraram as autoridades públicas, que não tiveram qualquer solução para oferecer antes que ele fosse preso. Não é que exista uma falha individual dos servidores públicos que o atenderam, o problema é sistêmico.
Por exemplo, ainda no início no ensino fundamental as crianças dão à escola sinais muito evidentes e precoces de que vão se meter em problemas futuros; sei que é difícil intervir nesse momento, mas depois só piora, então é de pequenino que se torce o pepino.
Acontece que não tem sido dada a atenção necessária aos alunos com desempenho sintomático, e o poder público demora muito em adotar o ensino em tempo integral. Como se fosse preferível lidar com adolescentes armados e resolutos, em vez de crianças malcomportadas.
Além de constituir uma tragédia pessoal e social, o envolvimento de adolescentes com atividades criminosas tende a ser particularmente violento, já não estão totalmente desenvolvidos, não medem as consequências, gostam da adrenalina, são fortemente influenciáveis etc. Ou seja, adolescentes tendem a matar e a morrer muito mais que adultos, piorando demais aquilo que já é terrível.
Funciona mais ou menos assim: o Estado não dá muita importância a crianças e adolescentes problemáticos senão quando eles já estão enterrados até o pescoço, frequentemente já muito ativos em quadrilhas de traficantes. Ou, melhor dizendo, quando eles viram notícia após praticar algum ato particularmente violento ou quando, vivendo a vida louca, morrem em confronto com a polícia.
Mesmo assim, apenas por 15 minutos. Amanhã já estarão esquecidos e outros tomarão os seus lugares, inclusive em manchetes funestas. Um ciclo que poderia ser interrompido lá atrás, sem vítimas, sem culpados e inocentes, sem que a sociedade precise contemplar esse espetáculo pavoroso no seu dia a dia.
Até quando ficaremos apenas reclamando?