Esta semana tivemos a notícia de que a Justiça não conseguia encontrar um réu que, no final das contas, estava preso. Esse fato ilustra bem dois pontos para os quais temos procurado chamar a atenção do leitor: o atraso tecnológico na segurança pública e o equívoco em se apostar em leis muito severas nem sempre aplicadas de maneira eficaz. É bem verdade que esse caso não é comum, mas outros problemas parecidos se repetem com frequência assustadora.
Os bancos brasileiros são, com certeza, os mais avançados do mundo em termos de informática. Isso permite rapidez, segurança e baixos custos, disponibilidade 24 horas por dia etc. Se mesmo quadrilhas muito hábeis têm dificuldade de praticar golpes e fraudes, imaginem com que frequência ocorrem falhas casuais.
Além disso, é fácil perceber, apurar, corrigir. Tudo, repita-se, economizando dinheiro. São bilhões de operações bancárias acontecendo diariamente na velocidade da luz, com um percentual mínimo de problemas e a custo reduzido. Quem dera fosse assim no serviço público.
Já foi muito pior, tanto o CNJ como o Ministério da Justiça e outros órgãos têm procurado vencer esse desafio, mas o fato é que ainda não temos um controle preciso e facilmente disponível de quem está ou deveria estar preso, quem tem ou não antecedentes criminais ou responde a ações penais.
Não aproveitamos nem um milésimo do potencial de automação da investigação criminal e quase nada fazemos pela segurança na internet. Quase todo o trabalho ainda é realizado manualmente por seres humanos. No mínimo é preciso alimentar e consultar, um a um, bancos de dados que não conversam entre si e muito menos estão consolidados.
A realidade é mais ou menos a mesma em tudo o que diz respeito ao enfrentamento da criminalidade e, no fim das contas, é o retrato do Estado brasileiro: atraso tecnológico, baixo investimento, desperdício de pessoal em tarefas que seriam fáceis de se informatizar.
Há um desafio adicional que decorre de serem muitos órgãos públicos com autonomia, de três esferas diferentes de poder federal, estadual e municipal. Cada um desenvolve seus próprios sistemas, que nem sempre interagem. É cotidiano que o servidor público precise consultar um banco de dados para alimentar manualmente o outro. Aliás, é preciso consultar tudo, porque a informação não vem automaticamente. E nem sempre é precisa.
Fazer leis é muito fácil. Mudá-las, mais ainda. Só gasta saliva no Congresso e já não é preciso nem mesmo gastar papel e tinta com o Diário Oficial. Aumentar efetivo é muito mais caro e demorado, mas é outra aposta meio automática, embora nem sempre seja a melhor.
Sim, porque só faz sentido colocar mais gente para tarefas que realmente exigem seres humanos, com suas falhas, mas também suas capacidades que a tecnologia da informação (ainda) não é capaz de replicar, não para fazer o serviço de um computador.
A solução para os problemas começa no diagnóstico correto, e aumentar as doses de remédios que não fizeram efeito geralmente é uma receita para o fracasso. O Big Brother está muito ultrapassado, é coisa do século passado. Com a tecnologia que já existe hoje e economizando recursos públicos, o Estado poderia identificar e saber onde está cada cidadão, em tempo real. O Google sabe.