Depois de uma avalanche de notícias trágicas sobre violência em ambientes destinados a crianças e adolescentes, parece que as manchetes deram uma trégua, mas o assunto ainda repercute nas redes sociais e entre políticos. Estes, em geral e infelizmente, com as propostas mais desastradas.
Primeiro vamos retomar aquela história da percepção enviesada. Sempre que cai um avião de linha, centenas de passageiros perdem a vida e isso, claro, rende manchete por vários dias. Por um tempo, o assunto ainda rende a cobertura até de pequenos incidentes sem vítimas, como um teco-teco que sai da pista no Japão. Depois tudo parece ter voltado ao normal, mas é apenas no exterior.
Na mente das pessoas, aquele incidente martelado faz com que se perceba de maneira distorcida o risco de viajar. Racionalmente, faríamos uma conta simples: qual é a probabilidade de alguém sofrer um acidente fatal fazendo o mesmo percurso de avião, ônibus, automóvel particular ou, quando disponível, navio? As estatísticas demonstrarão que, contrariando nossos instintos, não há nada mais perigoso que longas viagens de automóvel, sendo sempre preferível (além de mais confortável e até, geralmente, barato) ir de avião comercial.
Bem, ficar indefinidamente cuidando desses episódios nas creches e escolas causa estragos silenciosos maiores que o mal em si. Não, o tema não pode entrar na agenda de políticos e tudo o que os governos podem e devem fazer é prevenir ou remediar as pequenas violações que podem ocorrer no ambiente escolar: bullying, agressões entre alunos/professores, indisciplina, vandalismo etc.
O mesmo ambiente mais favorável para o aprendizado e para o amadurecimento de nossos jovens e crianças será também menos propício a qualquer tipo de evento mais grave. Escolas mais humanizadas não apenas trarão mais cidadania e oportunidades profissionais, mas também, como efeito colateral positivo, menos manchetes trágicas.
Fora isso, o único caminho é realizar escutas cientificamente fundadas dos autores desses descalabros, com autorização judicial e respeitando o direito de que eles se neguem, embora isso seja improvável. Claro, pois essas pessoas obviamente não foram as únicas que sofreram violências na escola ou no lar, não são as únicas com problemas psicológicos etc.
Sem entender a fundo e com rigor científico como foi o processo que as levou a este ponto extremo, ficaremos repetindo lugares comuns e presunções – que podem até estarem certas, mas nunca levaram a nada, como é fácil ver nos EUA, país rico e poderoso que sofre muito mais com esses problemas e nunca conseguiu achar nenhuma solução efetiva, mesmo com gastos astronômicos e previsivelmente inúteis em segurança escolar.
Sabem o que há de urgente? Parar de discutir este assunto e deixá-lo para as autoridades e cientistas da área psi. Apesar das boas intenções, quem mais tenta ajudar acaba atrapalhando. Coerentemente, esta será a nossa última coluna com este tema.