E a cracolândia de São Paulo, hein? Certo dia, apareceu vazia sem aviso e sem causa aparente.
Traumatizada com acusações de violação aos direitos humanos, a prefeitura logo disse que não sabia de nada, que não tinha nada a ver com aquilo e que já estava assim quando ela chegou. Depois, vendo a repercussão positiva, para colher um pouco dos louros dessa conquista tão ansiada pela população, tentou emendar o discurso, dizendo que havia colaborado em ações integradas com o governo estadual.
O Estado, já mais alinhado internamente, logo se louvou de ações estratégicas, como a neutralização de imóveis próximos que teriam sido adquiridos pelo PCC a preço de banana e estariam sendo utilizados como depósito de armas e drogas etc. Mas vazou pelos lados que os traficantes também levam os dependentes químicos para onde querem, a fim de desvalorizar os imóveis vizinhos e ganhar com a especulação.
A tropa de choque dos direitos humanos também chegou com sete pedras na mão, denunciando isso e aquilo, mas parece que também não sabiam direito o que havia, ou não, acontecido.
Passados alguns dias, parece que se deu o inevitável: a progressiva formação de novas aglomerações de dependentes dos nossos zumbis urbanos. Era previsível, porque essa população não recebeu nenhum tratamento milagroso que as curasse da noite para o dia e, enquanto houver alguém disposto a qualquer coisa por uma pedra de crack, haverá quem a forneça.
Já seria uma vitória parcial se ao menos os “cracudos” permanecessem dispersos, sem afetar tão intensamente esta ou aquela parte da cidade, mas nem isso parece que se conseguiu, até porque é natural que eles se amontoem em torno de um fornecedor e o sigam aonde ele for. Se bobear, a migração da cracolância, no final das contas, pode ter sido apenas uma manobra dos traficantes para aumentar o valor dos imóveis que eles teriam adquirido e levar a desvalorização a outra região onde pretendam “investir”.
Ainda há muita “neblina de guerra”, informações poucas e pouco confiáveis, muita gente levando a discussão para o plano eleitoral. Com mais algum tempo teremos certeza se a cracolândia pelo menos diminuiu ou se fragmentou em várias menores, ou se apenas mudou de endereço. Qualquer vitória sustentável nessa questão merece ser comemorada, ainda que pequena, mas se tivermos apenas a repetição de tentativas anteriores, que só levaram à migração do problema, será impossível não criticar a teimosia das autoridades públicas.
Tiro, porrada e bomba espalham qualquer multidão, mas não fazem as pessoas e os enigmas desaparecerem.