Os sete candidatos a governador do Espírito Santo, em cumprimento às normas eleitorais, registraram suas propostas de governo. Uma primeira análise das propostas dos cinco principais candidatos indica uma grande disparidade entre elas. Os dois que lideram as pesquisas apresentaram propostas demasiadamente extensas, com 152 e 150 páginas. Verdadeiros compêndios, sem prioridades claras.
Os demais candidatos apresentaram propostas com 77, 50 e 18 páginas. Mais concisas, mas também com listagem de inúmeros itens a serem implementados. O TSE não fixa limites, possibilitando assim textos prolixos com uma enormidade de itens, um formato inadequado para o acesso e compreensão dos cidadãos. Fazendo a leitura é muito difícil identificar as verdadeiras prioridades, ou seja, fica a impressão de que não há prioridade.
Mas vejamos quais são as propostas para a área da educação. Neste caso também encontramos uma relação de itens, dos quais destacaremos cinco: melhoria da aprendizagem; recomposição das aprendizagens; educação integral em tempo integral; reestruturação/reorganização das redes de escolas públicas estaduais e municipais; e cuidados com os professores.
Apenas um candidato se compromete de forma explícita com a melhoria da aprendizagem e estabelece metas a serem atingidas. Os demais candidatos são genéricos, sem abordar de forma direta a necessidade de melhoria da aprendizagem, ou seja, não se comprometem com resultados. Se eleitos, a educação ficará à deriva, lamentavelmente.
O segundo aspecto relevante é a necessidade de recomposição das aprendizagens que não foram realizadas devido à pandemia. No próximo período de governo esta ação deverá ter prioridade absoluta, pois há uma geração de crianças e jovens muito prejudicados em seu desenvolvimento de competências e habilidades. As cinco propostas não dão destaque a essa ação, sendo que três usam o termo recomposição da aprendizagem, sem deixar muito claro seu significado, e as outras duas ainda usam o termo defasado e inadequado de reforço escolar. Esse é um ponto que merece muita atenção, devido às gravíssimas defasagens já identificadas nas avaliações realizadas.
O conceito de educação integral não foi adequadamente abordado na maioria dos programas. Confunde-se educação integral com educação/escola em tempo integral. Educação integral supõe um currículo diversificado e integrado, que visa desenvolver nos estudantes as competências e habilidades do século XXI, cognitivas e socioemocionais. É desejável que se realize em escolas que acolham os estudantes em tempo integral e os professores em dedicação exclusiva a uma única escola.
A educação em tempo integral nem sempre propicia a educação integral, pois não parte da definição prévia do currículo diversificado e integrado. O seu foco é em expandir o tempo do aluno na escola, ficando em segundo plano o currículo inovador e a dedicação exclusiva dos professores a uma única escola. A forma correta de abordar é educação integral (currículo modificado) em tempo integral. Apenas um candidato faz desta forma. Os demais se fixam apenas no tempo integral, o que é insuficiente para qualificar a educação.
A expansão, sobretudo a universalização da educação integral, que é compromisso de todos os cinco candidatos, coloca um desafio associado, que é a necessidade de reorganização/reestruturação das redes de escolas públicas e um esforço de investimentos em construção de novas unidades escolares, pois o tempo integral demanda mais espaço físico nas escolas.
Quatro propostas não se comprometem com a reorganização e com propostas objetivas de construção de novas unidades escolares. Apenas um candidato aborda o assunto e se compromete a construir 100 novas escolas.
Por fim, lamentavelmente, os professores, os principais responsáveis pela implementação dos novos currículos e pela promoção da melhoria das aprendizagens, não ocupam um lugar central nas propostas de governo. As referências aos professores são dispersas e desconectadas. Carreiras, melhorias salariais, formação continuada, atenção à saúde e condições de trabalho são preocupações citadas, mas que não se combinam de forma a conferir aos professores o papel de uma prioridade estratégica para melhorar a qualidade das aprendizagens. Sem cuidar de forma sistêmica e integral dos professores, o Espírito Santo não terá nos próximos anos um processo contínuo e robusto de melhoria da qualidade da educação básica.
Os candidatos ainda podem rever suas propostas de governo e tornar mais claras as prioridades na área da educação. É o que a sociedade espera!