Enfim, terminou o causticante janeiro, sem chuvas, repleto de sol e de violência. Dezenas de pessoas morreram assassinadas, a tragédia de Brumadinho cobriu de lama a memória nacional, vitimando centenas de pessoas, um mês para ser esquecido, se fosse possível. Fevereiro é tempo de voltar às aulas, com professores e alunos queimados do sol já esperando o Carnaval, a Semana Santa e os feriados do ano letivo. São 200 dias letivos por ano, o que não é pouco, se fossem, mesmo, dias. Na maioria das escolas se trabalha em tempo parcial, ou seja, quatro horas por dia, o que equivale a um sexto do dia. Essas quatro horas incluem chegada, acomodação dos alunos, chamada, recreio, demora em retornar à aula, o que reduz esse tempo em mais um quarto. Ou seja, nossos alunos estudam, mesmo, três horas por dia, isso se não houver falta de professor, ou algum problema que interrompa as aulas, como falta de água, ou interferência de criminosos. Estuda-se muito pouco em nosso país.
Conheço bem essa realidade, pois sou professor há 46 anos e atuei em diferentes níveis de ensino. Portanto, falo de cadeira e reafirmo o que disse antes: estuda-se muito pouco em nosso país e mal. Como dizia a música do Kid Abelha, de minha juventude, “Eu sei de quase tudo um pouco e quase tudo mal”. Educação de qualidade pressupõe escolas de tempo integral para todos, melhor salário dos docentes e maior qualificação profissional. Professores saem dos cursos de graduação despreparados para atuar no ensino fundamental e médio, pois, nos cursos superiores lhes é dada muita teoria e pouca prática.
Não adianta ensinar tanto Bakhtin e Vigotsky nos cursos de Pedagogia se o professor não sabe como ensinar a ler e a escrever. A maioria dos alunos, hoje, sai do ensino fundamental, depois de nove anos de escolarização, sem saber ler e escrever fluentemente.
Também não se pode esquecer que a escola, no Brasil, é classista, como a sociedade. Existem escolas para ricos, com uma mensalidade mais alta do que o salário dos professores. Essa escola forma os alunos que vão ocupar a maioria das vagas dos cursos universitários gratuitos, reforçando a disparidade social; há a escola para a classe média, também privada e alguma pública, sobretudo as de tempo integral, e há escolas para os pobres, geralmente sucateadas e cercadas de grades. A maioria não possui bibliotecas, auditórios, laboratórios. Portanto, não venham falar em “escola sem partido”. Isso não existe, pois ideologia é constituída pela realidade. Não é um conjunto de ideias que surge do nada; ela é determinada, sobretudo, pelo nível econômico.