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Literatura

Para celebrar a cultura e a língua, prefiro Machado de Assis a Rui Barbosa

Os congressistas que escolheram a data, instituída pela lei 11.310, de 2006, tinham Rui Barbosa como modelo para a cultura e a língua portuguesa, mas não foram felizes nessa escolha

Publicado em 09 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

09 nov 2020 às 04:00
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

O escritor Machado de Assis
O escritor Machado de Assis Crédito: Reprodução
No dia 5 de novembro, comemora-se, em nosso país, o Dia Nacional da Língua Portuguesa e o Dia Nacional da Cultura, pelo mesmo motivo: a data de nascimento de Rui Barbosa, nascido na data em 1849 e morto em 1923. Rui Barbosa foi notável jurista, orador, diplomata e profundo conhecedor da língua portuguesa em seu padrão culto. Foi um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897, e seu presidente de 1908 a 1919, sucedendo a Machado de Assis (1839-1908).
É claro que os congressistas que escolheram essa data, instituída pela lei 11.310, de 12/06/2006, tinham Rui Barbosa como modelo para a cultura e a língua portuguesa, mas não foram felizes nessa escolha, por terem eleito um símbolo da elite social, econômica e jurídica da sociedade brasileira, distanciado das classes populares e da realidade como um todo.
Antes tivessem optado por Machado de Assis, esse sim, um homem vindo do povo, mestiço como a maioria do povo brasileiro, que não teve escolarização regular, em sua época, por ser pobre e de origem humilde. Nasceu na comunidade do Livramento e começou a trabalhar muito cedo, nas ruas, vendendo doces; na juventude, trabalhou em tipografia, o que o aproximou do jornalismo e dos principais escritores de sua época; na maturidade, tornou-se funcionário público, tendo ocupado vários cargos nos ministérios da Agricultura, do Comércio e de Obras Públicas, onde se tornou diretor.
Machado de Assis foi o principal escritor brasileiro de sua época e, com certeza, de todos os tempos. Escreveu em, praticamente, todos os gêneros literários, sendo poeta, contista, cronista, romancista, dramaturgo, jornalista e crítico literário. Testemunhou a Abolição da Escravatura, em 1888, e a mudança de regime político no país, quando a República substituiu o Império, em 1889. Assistiu às diversas reviravoltas do mundo, na mudança do século XIX para o XX, e sobre tudo comentou, relatou e ironizou, em seus inúmeros textos publicados em jornais, revistas e livros.
Sua extensa obra constitui-se de dez romances, mais de duzentos contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e mais de seiscentas crônicas. Até hoje, se descobre obra sua inédita em livro, como a biografia do imperador Pedro II, feita na juventude. Por sua inovação literária e por sua ousadia em tratar de temas sociais que criticam a burguesia de sua época, Machado de Assis é visto, hoje, como um gênio literário, comparado a Dante, Shakespeare ou Camões.
Rui Barbosa foi um dos intelectuais mais brilhantes de seu tempo, ajudou a implantar a República nascente como coautor da primeira constituição republicana, atuando na defesa do federalismo, do abolicionismo, dos direitos e garantias individuais. Primeiro ministro da Fazenda do regime republicano, teve breve e discutida gestão marcada por grave crise econômica.
Polemizou ao mandar destruir a documentação histórica relativa ao tráfico dos escravos, sua intenção era não permitir a indenização aos proprietários. Foi deputado e senador, opositor ferrenho do comunismo, tido como “a invasão do ódio entre as classes” e por ser contrário à vacinação obrigatória, que via como “possíveis condutoras da moléstia ou da morte”. Por tudo isso, sugiro que a data comemorativa à cultura seja 21 de junho, o nascimento de Machado de Assis. Fica como sugestão aos congressistas de nosso tempo.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

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