Acredito que não haja ninguém, no Espírito Santo, que tenha estudado mais a obra literária do Padre José de Anchieta (1534-1597) do que a professora emérita da Ufes Ester Abreu, presidente da Academia Espírito-santense de Letras, como se pode comprovar pela publicação do livro "São José de Anchieta. Apóstolo do Brasil: poeta e dramaturgo", publicado em São Paulo, em 2024.
Composto de introdução, um capítulo sobre Anchieta e outro sobre o teatro de Anchieta, inclui anexos em que a autora compara as épicas "La Araucana" e "Uraguai", para reafirmar o pioneirismo do poema épico "Sobre as guerras de Mem de Sá", escrito em latim, por Anchieta, e publicado em 1563, em Coimbra, Portugal, pelo filho de Mem de Sá, no auge dos acontecimentos descritos no Brasil, obra anterior a seus conhecidos "Poemas à Virgem" e ao seu teatro catequético.
É a obra menos conhecida de Anchieta, por ter sido escrita em latim, e por ser um típico poema laudatório, comum entre os intelectuais que almejavam as graças dos governantes, mas de extraordinário valor histórico-documental, sobretudo como documento fiel da destruição dos povos originários e da violência dos portugueses para conseguir seus objetivos, o domínio das terras conquistadas pela espada e pela fé.
De Gestis Mendi de Saa, “Sobre as Guerras de Mem de Sá”, conforme analisou Ester Abreu, é o primeiro poema épico escrito no Brasil, e antecede em mais de 200 anos ao "Uraguai", de Basílio da Gama. Possui 3.059 versos, o que é considerado pequeno, para um poema épico da época, a mesma em que foi escrito o célebre "Os Lusíadas", de Camões, publicado em 1572.
O poema de Anchieta não tem a grandeza da epopeia de Camões, com mais de 8 mil versos e dez cantos, compostos em oitavas decassilábicas, tendo como herói Vasco da Gama, o maior navegador português. O de Anchieta tem como protagonista Mem de Sá (1504-1572), o terceiro governador-geral do Brasil, que governou o nosso país de 1558 a 1572, sucedendo a D. Duarte da Costa (1553-1558), com quem veio Anchieta.
Portanto, Anchieta participou, ativamente, da luta pela sujeição dos indígenas revoltados contra os portugueses, ocupantes de suas terras. O principal propósito de Mem de Sá era pacificar a colônia, submetendo os povos originários ao jugo português e, para isso, contou com o trabalho incansável dos jesuítas, liderados, inicialmente, por Manoel da Nóbrega, para converter os indígenas ao catolicismo e se sujeitar às leis do Estado português e da Igreja Católica.
O poema de Anchieta retrata, com fidelidade, o genocídio português contra os povos originários brasileiros e talvez por isso seja o menos divulgado da obra anchietana. Em sua nomeação, Mem de Sá teve amplos poderes para submeter o ‘gentio revoltado’, o que não aconteceu nos dois governos anteriores, mas pagou alto preço por isso, perdendo o filho, Fernão de Sá, na batalha do Cricaré, no norte capixaba, em 1558, e o sobrinho Estácio de Sá, na fundação do Rio de Janeiro, em 1565. Ambos morreram flechados pelos indígenas resistentes à dominação lusitana.
Em seus quatorze anos de governo, Mem de Sá conseguiu concentrar os povos indígenas em missões, os aldeamentos, o que lhes provocou grande morticínio por epidemias trazidas pelos invasores. Mais que as espadas portuguesas, foram os vírus europeus os maiores destruidores dos povos originários.
José de Anchieta veio ainda jovem para o Brasil, em 1553, como noviço da Companhia de Jesus fundada por Inácio de Loiola, seu parente. Sofria de tuberculose óssea, o que lhe provocou forte escoliose. Em vida, publicou “De Gestis Mendi de Saa”, em latim, em 1563, e uma “Gramática da língua mais falada na costa do Brasil”, em 1595, pouco antes de morrer, no Espírito Santo.
Anchieta foi o primeiro estudioso da língua tupi, a mais falada na costa do Brasil, tornando-se professor dessa língua aos irmãos que vinham catequizar os povos indígenas. Para estes, só havia duas opções: converter-se ou morrer. Como a história é escrita pelos vencedores, Anchieta é hoje considerado herói nacional e seu nome está inscrito no Livro de Aço do Panteão Nacional, desde 2010. O papa Francisco o canonizou, em 2014, após um processo de 417 anos. Seu corpo foi enterrado no Palácio Anchieta, em Vitória, mas nada existe em seu túmulo, pois seus ossos estão espalhados por toda parte, conforme crônica famosa de Rubem Braga, “Os ossos de Anchieta”.
O poema épico “Sobre as Guerras de Mem de Sá” não é obra de devoção, nem de zelo apostólico, como os seus poemas dedicados à Nossa Senhora e o seu teatro de cunho evangélico. É obra literária, de gênero épico-histórico. Dividido em quatro partes, o Livro I abre com uma invocação a Cristo Rei, narra o aperto dos portugueses pelos “índios cruéis”, a chegada de Mem de Sá, seu retrato físico e moral, e a Batalha do Cricaré, na Capitania do Espírito Santo, com a luta junto ao rio, onde morre Fernão de Sá, o filho do governador, após luta ferrenha.
Sepultado o herói, os combatentes retornam ao campo de batalha, derrotam o inimigo e deixam a Capitania do Espírito “em paz”, regressando à Bahia. Assim como o Livro I glorifica os feitos do filho Fernão de Sá, o Livro II enaltece o pai para sujeitar os indígenas sublevados da Bahia, liderados pelo cacique Cururupeba, “Sapo chato”, preso e castigado pelos invasores.
Fundam-se as quatro primeiras aldeias e descreve-se a revolta dos indígenas de Ilhéus. Depois de ferrenha luta, os indígenas são derrotados e os últimos versos enaltecem as alegrias do triunfo português.
O Livro III narra a guerra do Paraguaçu, com a destruição de 160 aldeias, cerca de mil casas, reinando a desolação e a morte. Os remanescentes se rendem, pedindo a conversão, para sobreviverem. Ocorre a morte do primeiro bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha, comido pelos Caetés, e a vingança de Mem de Sá é adiada, pois Mem de Sá tem de partir para o Rio de Janeiro, para lutar contra os franceses e os tamoios, seus aliados. Esses são derrotados com a conquista da ilha de Villegaignon, o forte é destruído e incendiado, e o poema conclui com um hino de amor a Cristo, rei do universo e das almas, portuguesas, de certo.
Uma pena que esse poema não seja mais conhecido e fragmentos seus não apareçam nos livros escolares, ao lado do manjado “A Santa Inês”, para que os estudantes brasileiros saibam como foi, realmente, a conquista dos portugueses dos territórios dos povos originários do Brasil.