Nesta semana, a Polícia Federal apreendeu 220 kg de cocaína que estavam escondidos no casco de um navio atracado em um dos portos capixabas. A ação da polícia e o modus operandi dos criminosos não são novidades. Essa é a quinta apreensão semelhante somente neste ano.
Esse cenário nos permite algumas análises. Que a cocaína não é produzida no Brasil não é segredo para ninguém. Os países produtores da droga são Peru, Bolívia e Colômbia. Para chegar aos portos capixabas, portanto, a droga precisa ser adquirida na América do Sul e percorrer toda a extensão do Brasil (entrando na fronteira oeste e chegando até o litoral, no leste do país). Para isso, os traficantes se valem do modal aéreo (transportando a droga em pequenos aviões até o Brasil) e do modal rodoviário (utilizando carros e caminhões para fazer com que a droga chegue ao litoral).
Ultrapassada essa primeira barreira, os traficantes contam com experientes mergulhadores para esconder a droga nos cascos dos navios, sem que ninguém perceba a complexa operação. O mergulho é tão arriscado que, em maio deste ano, um mergulhador natural de São Mateus morreu na Austrália, ao tentar retirar uma carga de cocaína colocada em um navio.
A retirada da droga (que precisa ser realizada no destino final, normalmente algum país da Europa) é um outro passo da intricada operação realizada pelos traficantes. Novamente é necessária a utilização de experientes mergulhadores, num trabalho que normalmente é feito na calada da noite (tornando tudo ainda muito mais complicado).
Finalizada a ação criminosa de fazer com que a cocaína percorra o caminho da América do Sul até a Europa, sem que as autoridades a interceptem, vem a parte “fácil”: vender a droga no mercado consumidor europeu.
Não precisa ser nenhum gênio para perceber, portanto, que a logística empregada no tráfico internacional de cocaína é absurdamente complexa, se assemelhando, em muito, ao que grandes empresas multinacionais fazem para entregar seus produtos ao redor do mundo. Somente grandes e estruturadas organizações criminosas estão capacitadas a realizar esse tipo de operação. Outro detalhe importantíssimo é a necessária lavagem do dinheiro após a venda da cocaína (assunto para outro artigo).
Feita essa breve fotografia do cenário, fica fácil perceber o tamanho do desafio da Polícia Federal no combate ao tráfico internacional de drogas. Estamos lidando com poderosas organizações criminosas que possuem, além de muito dinheiro, capilaridade internacional, estruturas semelhantes às de grandes empresas e, o pior, disposição para infringir as leis e praticar toda forma de violência a fim de produzir lucros e assegurar sua posição na "cadeia alimentar do crime".
Por outro lado, tais características apontam também para o que pode ser a maior fragilidade desses conglomerados do crime. Não há outra forma de vencermos o crime organizado que não seja a descapitalização das organizações criminosas. Apreender drogas e prender os criminosos é importante, mas tão ou mais importante para a eficácia das ações policiais é a retirada completa do patrimônio dos bandidos. Esse é o caminho que precisa ser perseguido a todo custo. Essa tem sido a meta e a obsessão da PF para combater o crime organizado transnacional.