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Imunização

Sarampo, poliomielite, rubéola: só a vacina protege as crianças

Queda na cobertura vacinal demonstra um risco de reintrodução de doenças já controladas no Brasil, como a rubéola, a meningite e o sarampo, e a importação de casos de poliomielite

Publicado em 01 de Setembro de 2022 às 02:00

Públicado em 

01 set 2022 às 02:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel Ethel Maciel
Coluna escrita com a colaboração de Tatiane Comerio, coordenadora da Vigilância Epidemiológica do município de Vitória.
O Brasil, por meio do Programa Nacional de Imunização (PNI), tornou-se referência mundial em vacinação por ter incorporado em seu calendário básico do Sistema Único do Saúde (SUS) diversas vacinas com oferta de maneira universal e gratuita. Porém, nos últimos anos, observou-se uma queda nas coberturas vacinais (CV) de vacinas básicas do calendário, principalmente do público infantil. Devido a isso, é notória uma maior frequência na ocorrência de eventos de saúde pública de doenças imunopreveníveis, a exemplo dos surtos de sarampo enfrentados por alguns Estados brasileiros.
A vacinação das crianças no primeiro ano de vida é de extrema importância para a prevenção de várias doenças transmissíveis e é um dos principais fatores associados à redução da taxa de mortalidade infantil. No Brasil, o cenário de baixas coberturas vacinais foi observado a partir de 2016, porém a partir de 2020, com a pandemia da Covid-19, a situação se agravou voltando a patamares semelhantes ao observado no triênio 1983/1985, anos anteriores a criação do SUS.
O impacto da pandemia na vacinação foi enorme e se deve principalmente ao receio da população em buscar serviços de saúde por conta do alto número de pessoas infectadas nas unidades de saúde que possuem salas de vacinas. Além disso, a sobrecarga nos serviços de saúde e a falta ao trabalho por parte dos profissionais de saúde em decorrência da infecção pelo SARS-CoV-2 diminuíram a oferta nos serviços de vacinação.

ESTUDO DA OMS

Esse não é um problema isolado no Brasil, um estudo feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com 61 países participantes, identificou em 85% deles queda nas imunizações em maio de 2020. As principais causas citadas para essa queda foram: redução da procura pela população (73%); falta de equipamentos de proteção individual (49%); restrições de viagem (40%) e falta de profissionais de saúde (43%).
O cenário atual demonstra um risco de reintrodução de doenças já controladas no Brasil, como a rubéola, a meningite e o sarampo, e a importação de casos de poliomielite, mais preocupante especialmente para localidades com baixa cobertura vacinal e bolsões de não vacinados. Vale ressaltar que os últimos casos de poliomielite no Brasil ocorreram em 1989. No ano de 1994, o país recebeu da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) a certificação de área livre de circulação do Poliovírus Selvagem em seu território, juntamente com os demais países das Américas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019, reuniu uma lista dos dez maiores desafios que o mundo enfrenta e um deles é a relutância ou a recusa de se vacinar, conhecido também como hesitação vacinal, impulsionada pelo movimento antivacina que ameaça reverter o progresso feito no combate às doenças evitáveis por imunização. A vacinação é uma das formas mais efetivas e de baixo custo para evitar doenças. Atualmente, previne cerca de 2 a 3 milhões de mortes por ano. Outras 1,5 milhão de mortes poderiam ser evitadas se a cobertura global de vacinação tivesse maior alcance.

DESINFORMAÇÃO E ACESSO

Assim, a queda nas coberturas vacinais antecede, mas foi potencializada pela pandemia da Covid-19. Diante desse estudo da OMS,  essa queda pode ser resumidas em duas grandes razões: a desinformação e a dificuldade de acesso. Pela natureza dessas razões, impõem-se diferentes níveis para a resolução desse problema. Sobre a desinformação, faz-se necessária uma comunicada de forma adequada, para o público certo, no momento oportuno da vacinação, com estratégias diferentes por faixa etárias e que atinjam também as famílias.
Uma prova da nossa falha na comunicação foi identificada neste fim de semana, durante a campanha de multivacinação no Brasil, onde apenas de 25% do público-alvo infantil foi atingido. No ES, esse número chegou a 24%.
Infelizmente, o sucesso do Programa de Imunizações que perdurou por décadas encontra-se ameaçado, e somente por meio dos esforços conjuntos entre as esferas de gestão municipal, estadual e federal, além de parcerias para ações intersetoriais e com o setor privado, poderemos romper as barreiras das salas de vacinação e ampliar nossas CV, facilitando o acesso aos serviços de vacinação. Um dos exemplos é facilitar a vacinação no ambiente escolar e fomentar a importância da vacinação; ação de comprovada eficiência para o alcance de altas coberturas vacinais.
Mediante a isso, o Espírito Santo sancionou no ano de 2018 a Lei n° 10.913/2018, que torna obrigatória a apresentação do cartão de vacinação no ato da matrícula e/ou rematrícula dos alunos de até 18 anos de idade, em todas as escolas públicas e privadas. Tal lei veio a fortalecer a importância da manutenção das cadernetas de vacinação do público infantojuvenil atualizadas com a finalidade de evitar o reaparecimento de casos de doenças imunopreveníveis.

ORIENTAÇÕES DA UNICEF

Estudo realizado pelo Unicef indica alguns caminhos para o fortalecimento das coberturas vacinais. Os principais são: recomendações de realização de campanhas de vacinação mais abrangentes e mobilizadoras, com informações sobre a vacina, a gravidade da doença e a possibilidade de reações adversas; estabelecer parcerias entre as redes públicas de saúde e educação; acesso ampliado dos horários das unidades de atendimento e capacitação permanente das equipes de vacinação.
Aproveitar os espaços coletivos como escolas e empresas para as ações de vacinação é fundamental para fortalecer a captação dos não vacinados ou com esquemas incompletos e promover vacinação oportuna. Um indivíduo não vacinado pode ser uma ameaça a uma comunidade e impactar toda a cadeia produtiva, tanto pelo absenteísmo quanto pela possibilidade de sequelas de doenças.
Um país vacinado passa pelo compromisso de toda a sociedade, pois a vacinação é uma estratégia coletiva para que possamos ter populações e indivíduos mais saudáveis.

Ethel Maciel

Ethel Maciel Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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