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Poliomielite

Paralisia infantil: o que o Brasil deve fazer para evitar retorno da doença

A poliomielite pode provocar ou não paralisia. Nos casos graves, em que acontecem as paralisias musculares, os membros inferiores são os mais atingidos. Não há cura

Públicado em 

15 set 2022 às 00:05
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

No sábado, 10 de setembro, o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde, órgão do Ministério da Saúde, divulgou o comunicado de risco sobre a detecção do vírus da poliomielite nos EUA e já colocou toda a rede de diagnóstico do Brasil em estado de alerta.
O mundo observa com preocupação o ressurgimento desse velho mal que atingiu muitas famílias no passado: a paralisia infantil, como é conhecida popularmente a poliomielite. Doença contagiosa aguda causada por um vírus que vive no intestino, chamado poliovírus, que pode infectar crianças e adultos por meio do contato direto com fezes ou com secreções eliminadas pela boca das pessoas infectadas.
A poliomielite pode provocar ou não paralisia. Nos casos graves, em que acontecem as paralisias musculares, os membros inferiores são os mais atingidos.

NÃO HÁ CURA

Não há tratamento nem cura para a doença. Só existe a prevenção através da vacinação. Desde 2014,  a OMS decretou a poliomielite como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, chamando a atenção dos países membros das Nações Unidas para que tomassem providências para o enfrentamento da doença, após o surgimento de alguns casos no mundo, culminando com a criação de uma Comissão Global para Certificação da Erradicação da Poliomielite.
A última reunião dessa comissão ocorreu em Genebra em junho de 2022 e teve como objetivo revisar o progresso para a erradicação do vírus selvagem da poliomielite, incluindo a resposta ao surto na África Austral, e revisar o progresso para prevenir surtos de vírus vacinal do tipo 2. Após o isolamento do poliovírus tipo 2 derivado de vacina (VDPV2) de amostras ambientais em Londres, Reino Unido, em maio de 2022, análises virológicas e epidemiológicas adicionais confirmaram a circulação dessa cepa. Nenhum caso de paralisia associada a essa cepa havia sido detectado – o vírus foi isolado apenas de amostras ambientais (esgoto).
Dia D de mobilização da Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite e Sarampo.
Dia D de mobilização da Campanha Nacional de Vacinação contra a Poliomielite e Sarampo. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Isso acontece, pois há duas vacinas para esse vírus, a vacina oral, do nosso conhecido personagem Zé Gotinha, que é uma vacina de vírus atenuado (enfraquecido), e a vacina intramuscular, que é de vírus inativado (morto), a vacina inativada (VIP). A vacina de vírus enfraquecido, vacina oral (VOP), como o vírus ainda está com sua atividade de produzir sintomas, pode causar doença em pessoas imunossuprimidas. Quando há alta cobertura vacinal, ou seja, 95% de crianças menores de 4 anos com a vacina em dia, a circulação do vírus é interrompida ou fortemente diminuída, e não há perigo para a saúde pública. O problema começa a surgir quando as coberturas vacinais passam a ficar baixas e nós temos muitas pessoas suscetíveis à doença na comunidade.

CASO NOS EUA

A região das Américas estava livre do vírus selvagem e do vírus vacinal em circulação, mas na semana passada o surgimento de um caso nos EUA, e a descoberta do vírus vacinal no esgoto onde reside a pessoa diagnosticada com a doença, fez com que o Ministério da Saúde emitisse o comunicado de risco para o Brasil.
É importante notar que desde o isolamento inicial do VDPV2 em Londres no mês de maio as autoridades de saúde pública já trabalhavam com a ideia de que essa cepa estaria circulando. Para interromper rapidamente sua circulação, ações são imediatamente necessárias, como: continuar a intensificar os esforços de vigilância (inclusive para casos potenciais de paralisia), identificar subgrupos populacionais ou áreas com baixas coberturas vacinais, oferecendo uma dose adicional de vacina para fortalecer a cobertura vacinal.
Devido à eliminação da poliomielite em diversas regiões do mundo e também para evitar a paralisia que pode ser causada pelo vírus contido na vacina oral (VOP), a OMS recomenda que países como o Brasil, de baixo risco para o desenvolvimento da doença, passem a utilizar a vacina inativada (VIP), sempre que possível. A partir de 2012, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) adota a vacina VIP nas três primeiras doses do primeiro ano de vida (aos 2, 4 e 6 meses de idade) e a VOP no reforço e campanhas anuais de vacinação.

MEDIDAS NO BRASIL

É hora de o Brasil utilizar apenas a vacina de vírus inativado (VIP) para o esquema primário e para o reforço, ou seja, todas as doses. No entanto, devido a baixas coberturas vacinais nos últimos anos, e principalmente agravada pelos movimentos antivacinas fomentados durante a pandemia da Covid-19, é importante uma mudança de estratégia por parte das autoridades sanitárias do Brasil.
Diante dessa catástrofe anunciada, a OMS se juntou a outras organizações, entre elas o Rotary Internacional, para uma campanha do mundo livre da poliomielite. No Espírito Santo, além das autoridades sanitárias, o Rotary, em parceira com o Laboratório de Epidemiologia da Ufes, está também desenvolvendo ações para a erradicação da pólio.
Envolver a sociedade, informando os efeitos danosos de um retorno dessa doença grave, com sequelas relacionadas com a infecção da medula e do cérebro pelo poliovírus, em geral de ordem motoras e sem cura, é tarefa primordial. Para deter esse mal que nos assombra com seu retorno, a ampliação da cobertura vacinal se faz urgente.
Sociedade civil, pais, responsáveis e educadores devem atentar para a vacinação contra a poliomielite, colaborando para a redução dos bolsões de não vacinados. Somente juntos poderemos vencer essa doença e trabalharmos para sua completa erradicação.

Ethel Maciel

Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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