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Machismo

O peso dos pés que querem nos sufocar ainda aperta as mulheres

Ele restringe nossos movimentos e tenta limitar o alcance de nossas aspirações. Para mulheres negras, os pés nos pescoços são ainda mais reais e concretos

Publicado em 01 de Outubro de 2020 às 06:00

Públicado em 

01 out 2020 às 06:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

Homem - Agressor - Machismo - Violência contra a mulher - Feminicídio
Violência contra a mulher Crédito: Arabson
Na pandemia, fomos surpreendidas e surpreendemos a sociedade, que subitamente descobriu que nossas casas eram lugares insalubres, perigosos e fatais. Há dois anos, o secretário-geral da ONU, em um evento do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher, também usou o termo “pandemia” para se referir a essas violações no mundo inteiro. Mulheres negras e pobres estão ainda mais expostas à violência que sofremos, numa sociedade patriarcal.
Em 2019, no mundo, segundo a ONU, aproximadamente 1 em cada 5 mulheres foi violentada por um agressor conhecido da vítima. Durante os primeiros meses de distanciamento social no Brasil, houve um aumento de 40% de denúncias registradas por meio do 180 em relação ao ano anterior.
Certamente, ainda que com uma subnotificação considerável, precisamos entender que a violência contra mulher está muito além da violência doméstica e pode ser observada de várias formas, como por exemplo, nas intimidações e ameaças que as jornalistas, atletas, artistas e cientistas estão sofrendo por parte da sociedade machista, inclusive de agentes políticos por oposições a determinadas ideologias. Quando uma mulher expressa seu pensamento, a violência que se segue é desproporcional. Algumas que, mesmo no século 21, são lançadas em fogueiras simbólicas, outras inclusive com ameaças à vida.
“Mas não peço favores para o meu gênero. Eu não desisto de nossa reivindicação de igualdade. Tudo que peço a nossos irmãos é que tirem os pés de cima de nossos pescoços e nos permitam ficar de pé...”. Quase duzentos anos depois, o pensamento de Sarah Grimke, feminista e abolicionista americana, continua atual. Ainda temos nossos irmãos, que deveriam se levantar conosco pela igualdade, mantendo os pés nos nossos pescoços e impedindo que estejamos inteiras em nossos potenciais, talentos e habilidades.
Em 200 anos nós já havíamos superado a caça às bruxas, a fogueira da inquisição, a internação nos hospícios, a declaração de incompetência intelectual e tantos outros pés que foram colocados em nossos pescoços ao longo dos séculos. Conquistamos o direito de estudar, de ter educação formal, de ter conta bancária, de ter emprego digno e de participar da política.
Mas o peso dos pés que querem nos sufocar ainda aperta, restringe nossos movimentos e tenta limitar o alcance de nossas aspirações. Para mulheres negras, os pés nos pescoços são ainda mais reais e concretos.
Mas há também o pé simbólico nos nossos pescoços, que nos impedem de falar e denunciar o que precisa ser dito. Uma sociedade que observa passivamente a violência a perpetua e nos cerceia de prosseguir em nossos legítimos caminhos. Essa é uma prova cabal de que precisamos repensar, no pós-pandemia, uma sociedade que consiga nos enxergar para além dos nossos corpos. Em que nossas casas sejam refúgio e abrigo, não inseguras e letais.
Uma boa iniciativa vem de nossos vizinhos. Os clubes de futebol da Argentina estão incluindo no contrato dos jogadores uma cláusula de rescisão unilateral em caso de violência contra mulher. Nos últimos seis anos, 14 jogadores do futebol argentino foram denunciados. Essa iniciativa deveria ser seguida por empresas, instituições e clubes.
Mas já passamos do tempo de pedir fraternalmente a retirada dos pés de nossos pescoços. É chegada a hora de impedirmos que ele seja colocado em nossas meninas e mulheres. Depende de nós educar a próxima geração, para que cada uma possa ficar de pé diante do seu sonho e ter as mesmas oportunidades para realizá-lo.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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