Com colaboração de Fernando Poltronieri, doutorando em Direto pela FDV
Donald Trump, em mais uma ação de ataque aos estrangeiros, afirmou, na última quarta-feira (29), que enviaria os “piores estrangeiros criminosos” a Guantánamo, uma prisão localizada em uma base naval dos Estados Unidos no sudeste de Cuba.
A questão aqui não é apenas tratar estrangeiros irregulares como criminosos, uma estratégia discursiva que Trump já vem utilizando desde sua campanha e governo anteriores, mas, principalmente, atribuir aos estrangeiros tratamento semelhante ao que, no passado, foi implementado com terroristas e prisioneiros de guerra.
Apesar de estar em território cubano, a base é administrada pelos EUA, que mantêm ali um centro de detenção de alta segurança desde 2002, destinado a suspeitos de terrorismo. O local se tornou símbolo de controvérsias e violações de direitos humanos, sendo alvo de críticas da comunidade internacional.
A prisão da Baía de Guantánamo foi criada em 2002 pelo governo dos Estados Unidos, durante a administração de George W. Bush, como parte da "Guerra ao Terror" após os ataques de 11 de setembro de 2001. O local foi escolhido por estar fora do território continental dos EUA, permitindo que os detidos fossem mantidos sem as garantias legais concedidas pelo sistema judicial americano. Com isso, Guantánamo tornou-se um espaço onde suspeitos de terrorismo eram mantidos indefinidamente sem acusação formal ou direito a julgamento.
Desde sua criação, a prisão esteve no centro de inúmeras denúncias de maus-tratos e tortura. Investigações revelaram que os detentos foram submetidos a técnicas brutais de interrogatório, incluindo waterboarding (simulação de afogamento), walling (bater a cabeça contra a parede), privação extrema de sono, exposição a temperaturas extremas e isolamento prolongado. Relatos indicam também práticas humilhantes, como nudez forçada e abusos sexuais.
Em 2014, um relatório do Senado dos EUA confirmou que a CIA empregou métodos considerados tortura contra prisioneiros, tendo inclusive revelado que um dos prisioneiros morreu de frio, acorrentado ao chão de uma cela. As práticas foram banidas por Barack Obama, que admitiu se tratar de tortura e, inclusive, tentou fechar a prisão durante seu mandato.
A declaração do recém-eleito presidente dos EUA, Donald Trump, de que enviaria os “piores estrangeiros criminosos” a um dos mais tenebrosos estabelecimentos prisionais da história, Guantánamo, nos chocou a todos, ou a menos deveria, se fôssemos, de fato, um país com uma moralidade e religiosidade verdadeiramente cristãs.
Ainda não é possível afirmar de que forma a ideia de Trump será executada. Se encaminhará estrangeiros que foram condenados por crimes comuns (roubo, homicídio, tráfico de drogas, entre outros), cometidos em solo americano, ou se a decisão também abarcará os estrangeiros que forem detidos ao tentarem ingressar ilegalmente no território dos EUA.
De qualquer forma, condenados ou não, direcionar estrangeiros a uma prisão como Guantánamo, além de ter um grave efeito simbólico de higienização social e afastamento dos indesejáveis do solo americano, coloca estrangeiros no mesmo patamar de terroristas e inimigos de guerra, para os quais, no passado, a prisão foi criada.
É como se a decisão de Trump criasse, por si só, uma nova casta de prisioneiros: os estrangeiros, mais perigosos, agressivos e nocivos ao Estado do que os demais criminosos, reforçando, no imaginário coletivo, o ódio a todo esse grupo.
Jesus Cristo, figura central na religião dominante no mundo ocidental, inclusive nos EUA, nos ensina que o cuidado com o estrangeiro é um princípio fundamental do cristianismo. Em Mateus 25:35-40, Jesus exemplifica essa responsabilidade ao afirmar: “Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes”. Nesse trecho, Jesus ensina que a compaixão e o acolhimento aos necessitados — incluindo os estrangeiros — são atitudes que refletem a verdadeira justiça.
Quando governos propõem medidas que tratam imigrantes como criminosos sem distinção, como a ideia de enviá-los para Guantánamo, há uma clara negação do ensinamento de Mateus 25. Em vez de acolher, alimentar e oferecer dignidade aos estrangeiros, tais políticas os colocam em condições de isolamento, punição e sofrimento.
O princípio cristão apresentado por Jesus não se baseia em distinções de nacionalidade ou utilidade econômica, mas na compaixão incondicional. Assim, uma sociedade que se diz cristã deveria refletir sobre como suas políticas e discursos sobre imigração se alinham (ou não) a esse chamado para amar e cuidar do próximo, independentemente de sua origem.
Há uma grave incompatibilidade entre o que diz Trump e o que disse Jesus Cristo em relação aos estrangeiros. É chegada a hora de os defensores do cristianismo escolherem um lado, pois, como nos ensinam as escrituras, não é possível servir a dois senhores. Ser cristão implica, também e principalmente, em implementar, de imediato, um reino de amor, respeito e dignidade a todos.