Sem igualdade não há democracia, mas a compreensão do verdadeiro sentido da igualdade ainda está muito distante do que se faz presente no imaginário social.
O ideal constitucional de igualdade depende fundamentalmente da luta por equidade e por justiça. Enquanto milhares passarem fome, viverem nas ruas ou sem moradia digna, não tiverem como manter os filhos nas escolas, estiverem sem trabalho e sem dignidade, não há que se falar em governo democrático, em governo justo, em governante bom.
Começar governando para os pobre é condição necessária do ideal democrático que habita o coração e a mente de pessoas justas, íntegras, éticas e “boas”. Políticos bons, no sentido real da virtude “bondade”, jamais serão aqueles que priorizam os interesses do mercado e do capital. A bondade está fundamentalmente vinculada à ideia de justiça e de equilíbrio de direitos.
Não há bondade sem misericórdia e compaixão. Afirmar uma bondade baseada exclusivamente no exercício de uma caridade que vive de ofertar o que lhe sobra da mesa, como exercício pretensamente filantrópico a ser socialmente compartilhado nas redes sociais, nada mais é do que hipocrisia disfarçada de misericórdia.
Uma sociedade de tradição judaico cristã, que se afirma praticante de um cristianismo autêntico, frequentadora habitual de igrejas, sejam elas de qualquer matriz cristã que seja, não pode assistir impassível a defesa de projetos de governo que não priorizem os miseráveis, os necessitados e os vulneráveis de qualquer ordem.
Se acreditamos na ciência e nos dados produzidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que nos indicou em recente Nota Técnica de fevereiro de 2023 a existência de 281.472 pessoas em situação de rua, não há que se falar em governo bom se a prioridade absoluta não for a implementação de políticas públicas direcionadas a reverter, de forma imediata, essa condição injusta e indigna.
Quem mora nas ruas, quem passa fome e quem vive em condições miseráveis de existência tem pressa. Não há tempo lógico e cronológico para esperar o mercado melhorar, as empresas terem lucros maiores e os ricos continuarem a acumular riquezas sem medida. O tempo urge diante da miséria, da dor, da fome, da doença e da desigualdade extrema que nos atinge como nação e nos envergonha como sociedade pretensamente democrática e cristã.
A desigualdade social precisa ser atacada de imediato, ainda que os resultados na popularidade dos governantes possam vir a despencar, em razão da insatisfação dos privilegiados de sempre.
Cristianismo que prioriza os abastados de bens é cristianismo sem o espírito do verdadeiro Cristo que veio para os necessitados e miseráveis.
O sentimento constitucional que sustenta o ideal de igualdade é o sentimento que se sustenta na concretização de políticas públicas voltadas ao exercício da equidade como modelo democrático.
Iniquidades precisam ser enfrentadas de imediato. A radicalização no enfrentamento da miséria e na busca por condições dignas de existência deveriam ser os verdadeiros marcadores de um governo bom para todos e não apenas para alguns.
A ideia de igualdade, presente em nossa Constituição, nem sempre é entendida na sua dimensão real de sua grandeza e potência.