Comemoramos no último domingo o Dia dos Pais. A data movimenta, anualmente, o comércio, os restaurantes, as escolas e as igrejas.
Nas escolas de ensino fundamental, públicas e privadas, professoras dedicadas executam planos que incluem preparação de cartões e lembrancinhas para que as crianças prestem homenagens a seus pais.
São mensagens de carinho que exaltam a figura masculina, falam do pai forte, corajoso, amoroso, que cuida da família com amor e dedicação. Figuras de pais andando de bicicletas e brincando com os filhos nos parques da cidade aparecem nos outdoors, nas propagandas da televisão e nos cards que se espalham pelas redes sociais.
Na igrejas, músicas que enaltecem o amor paterno e se referem ao pai como sendo o representante de Deus na família, são cantadas por alegres crianças que repetem refrões como “ papai, meu super herói, é forte, inteligente e brincalhão, papai é o melhor”.
Famílias abastadas compram camisas de marca, perfumes importados, celulares, tênis e muitos outros “mimos” para alegrar a vida do papai querido.
No cotidiano, entretanto, a vida não se apresenta tão festiva e colorida. Milhares de crianças convivem com a terrível realidade de não saberem ao menos o nome de seus pais. Os cartórios efetuam cada vez mais registros de nascimento nos quais apenas consta o nome da mãe. No site da Associação Nacional dos Registradores de pessoas naturais (Arpen) encontramos que entre 2016 e 2021 dos 16 milhões de nascimentos ocorridos no país, 859,3 mil, ou seja, 5,33% das crianças foram registradas sem o nome dos pais.
Essa cruel realidade produz impacto durante toda a vida de uma pessoa, marcando-a definitivamente e trazendo consequências nefastas em seu desenvolvimento afetivo, cognitivo e social.
Pesquisas comprovam que a ausência paterna, seja ela por desconhecimento da origem filial, seja por distanciamento deliberado e intencional por parte do pai, o chamado abandono paterno, produz sentimentos de insegurança e baixa autoestima, produzindo profundas dificuldades nos relacionamentos que a criança vai travar ao longo de sua vida.
A ausência paterna, fenômeno que se manifesta de diversas formas e magnitudes, não pode ser considerada apenas nos casos nos quais o nome do pai não conste da certidão de nascimento da criança, ou nos casos nos quais o pai abandone seus filhos, distanciando-se deles física e/ou emocionalmente.
A presença ausente - que se manifesta no descaso, na desconsideração com a escuta da criança, na desculpa do trabalho excessivo (muitas vezes verdadeira), no descompromisso com as necessidades físicas e emocionais dos filhos, na falta de zelo, na colocação da vida, da saúde e da segurança da criança em risco, na transferência de toda a responsabilidade pelo cuidado para a mãe, seguindo a tradição de uma cultura patriarcal, arcaica e machista - pode ser o estopim para uma vida, na adolescência e adulta, carregada de sentimentos de abandono, de solidão, de insegurança, que muitas vezes pode se transformar em comportamentos pouco sociáveis e urbanos.
Segundo dados informados pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, somente nos cinco primeiros meses de 2022, foram 4486 denúncias de violação de direitos de crianças, sendo que 18,6% dessas denúncias referem-se a crimes de abuso sexual.
Em 2021, das 18.681 denúncias, 60% referia-se a vítimas com idade entre 10 e 17 anos sendo que 74% delas eram meninas.
A residência da vítima é, quase sempre, o local de cometimento da violação e o pai suspeito em 2443 dos casos.
Se considerarmos que apenas 10% dos casos de violência sexual infantil são denunciados no Brasil, teremos a dimensão da gravidade do problema.
Pesquisa realizada pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro entre 2017 e 2021 aponta que, em casos de violência sexual contra crianças de 1 a 4 anos, o pai é o principal agressor (24% das notificações). Esse resultado confirma o resultado de pesquisa realizada em 2011 pelo Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo que revelou que de cada dez crianças vítimas de abuso sexual, quatro foram agredidas pelo pai.
Comemorar o Dia dos Pais, seja nas escolas, seja nas igrejas, para essas crianças, pode se constituir mais um fator de potencialização da dor e das violações.
O abandono paterno ou as diferentes formas de violências cometidas pelo pai contra seus filhos e filha são, certamente, fruto de uma cultura patriarcal, que concede aos homens, independentemente de legislações em contrário, o direito sobre a vida, a saúde, a segurança e a felicidade dos filhos, causando um inimaginável prejuízo em seu desenvolvimento físico, emocional e social, comprometendo a história e o futuro de milhares de crianças em nosso país.
Combater o patriarcado e o machismo, construindo uma cultura de igualdade e de respeito ao outro é, certamente, o único caminho de desnaturalização da violência, de forma a que possamos, talvez, em um futuro próximo, comemorar o Dia dos Pais de forma mais verdadeira e feliz.