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Comportamento

Direito à saúde também depende de um mundo sem plástico

A meta estabelecida de redução de 60% na produção de plásticos até o ano 2040 não será alcançada sem que haja uma conscientização de toda a sociedade acerca dos danos que eles causam à saúde humana e ao planeta como um todo

Publicado em 30 de Abril de 2024 às 01:30

Públicado em 

30 abr 2024 às 01:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

O último editorial do The Lancet Diabetes & Endocrinology, um dos mais importantes periódicos científicos do mundo na área da saúde, publicado em 19 de abril, trouxe um impactante alerta para todos, relacionando o uso dos plásticos e o que se denomina poluição plástica ao agravamento das condições da saúde humana.
São muitos os fatores que influenciam o surgimento de doenças. Entre eles destacam-se aqueles relacionados ao estilo de vida e à degradação ambiental. Somos convidados, cotidianamente, a repensarmos, por exemplo, a forma como vivemos, o tipo de alimentos que ingerimos e o sedentarismo.
Pouco se fala, entretanto, do impacto dos compostos plásticos, presentes em quase todos os produtos que estão ao nosso redor, especialmente nas embalagens de alimentos, brinquedos, equipamentos e tantos outros materiais, que tornam o Brasil, em particular, um dos maiores produtores de lixo plástico do mundo, somente superando pelos Estados Unidos, China e Índia.
A urgência em solucionar o problema da poluição plástica levou o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) a publicar, em 2019, os resultados de um estudo denominado “Solucionar a Poluição Plástica: transparência e responsabilização”, no qual a gravidade da situação é destacada, e o alerta para a urgência do estabelecimento de um acordo global, com vistas a refrear a produção, o consumo e o descarte decorrentes do uso indiscriminado do plástico, foi proposta.
O editorial do Lancet, ao referir-se ao tema de 2024 do 54º Dia da Terra, “Planeta & Plásticos”, registra a importância de que toda a sociedade, inclusive empresas e governos, se comprometam com o fim dos plásticos.
A meta estabelecida de redução de 60% na produção de plásticos até o ano 2040 não será alcançada sem que haja uma conscientização de toda a sociedade acerca dos danos que eles causam à saúde humana e ao planeta como um todo.
Além das dificuldades inerentes ao processo de conscientização das pessoas quanto aos riscos do uso indiscriminado de plásticos e dos danos que causam, ainda temos que lidar com duas questões fundamentais:
  1. não é fácil modificar uma cultura que nos causa enorme conforto e facilidade no modo como vivemos. Comprometermo-nos com o fim dos plásticos é abrir mão de  uma série de comodidades às quais estamos profundamente acostumados;
  2. não é fácil modificar uma cultura que é absolutamente dependente dos interesses do mercado e do capital.
A questão é complexa. Quase tudo na dinâmica da vida moderna está rodeado de plásticos. Da mamadeira aos brinquedos infantis, da embalagem de alimentos ao saco de lixo, dos pneus e das peças de carros aos smartphones e computadores, das cadeiras escolares aos ventiladores de teto, dos aparelhos de ar condicionado aos cadernos, lápis e canetas. Enfim, em todos os âmbitos da vida humana.
A princípio, diríamos ser impossível viver sem eles. Entretanto, os plásticos estão presentes em nossas vidas há pouco tempo. Apesar de terem sofrido grandes aperfeiçoamentos, ao longo dos últimos anos, eles surgiram, efetivamente, no século XX.
Ainda que incipientes, do ponto de vista de sua abrangência, as investigações científicas existentes acerca dos danos causados a saúde apontam graves comprometimentos à saúde humana e aos animais, bem como à biodiversidade.
O Bisfenol (BPA), composto orgânico utilizado em embalagens de gêneros alimentícios, é considerado um desregulador endócrino. Pesquisas indicam que ele é “capaz de interferir na produção, no transporte, na liberação e no metabolismo de hormônios responsáveis por manter o equilíbrio e a regulação dos processos metabólicos. Além disso, diversos estudos relataram que o BPA em baixas concentrações pode ocasionar efeitos adversos sobre a fertilidade, o sistema nervoso e o sistema cardiovascular e também diabetes, câncer e obesidade”.
Lixo plástico
Lixo plástico Crédito: jcomp/Freepik
A sensibilização das pessoas para o problema, de modo que abracem o projeto de redução radical do uso de plásticos, depende não apenas de informação, mas de proposição de novos caminhos que possam garantir que as alterações exigidas não irão impactar negativamente suas vidas e o conforto ao qual estão acostumadas.
O alcance das metas de eliminação dos plásticos dependerá, sobretudo, de normativas que obriguem as empresas a repensarem seus produtos e seus compromissos com a saúde e com a sustentabilidade do planeta.
A conscientização acerca dos riscos à saúde, de tal modo que se alcance uma adesão forte da sociedade à meta de redução obrigatória de consumo e de produção de plásticos, depende, fundamentalmente, de políticas públicas de educação nas quais as pessoas possam perceber que não apenas elas devem se mobilizar, mas que todos os seguimentos, publico e privado, estão coletivamente obrigados a mudar hábitos de consumo e da dinâmica da vida.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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