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Saúde pública

Afinal de contas, sobram ou faltam médicos no Brasil?

Faltam médicos para atender aos pacientes dos serviços públicos de saúde e sobram médicos disputando clientela no setor privado. A questão das vocações na área médica é, sem sombra de dúvidas, um grande problema a ser enfrentado

Publicado em 14 de Fevereiro de 2023 às 00:05

Públicado em 

14 fev 2023 às 00:05
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

Centro de Diagnósticos do ES reúne exames e vacinas no mesmo local
Médico e paciente Crédito: Freepik
As mais de 390 escolas médicas em funcionamento no país lançam todos os anos no mercado cerca 40 mil novos médicos, recém-formados, sem qualquer experiência clínica, que darão início a uma corrida às vagas nas residências médicas oferecidas nos diferentes serviços de saúde, públicos e privados.
Eles passarão a compor o quadro nacional de médicos com registro nos Conselhos Regionais de Medicina espalhados pelos país. São cerca de 618.593 médicos para atender a uma população total de 215 milhões de habitantes. Eles representam uma média de 2,6 médicos para cada 1.000 habitantes.
Dos aproximadamente 40 mil médicos que se formam anualmente, menos da metade conseguirá ocupar uma das vagas de residência médica oferecidas no país. Os demais exercerão a medicina sem a formação necessária para um atendimento de qualidade.
O certo é que não há resposta correta para a pergunta. Ao mesmo tempo em que sobram médicos no país, o Brasil precisa de mais médicos, o que nos mostra que a polêmica em torno do número desses profissionais encobre a verdadeira questão sobre a qual precisamos nos debruçar, qual seja, as assimetrias regionais que deixam desassistidas milhares de pessoas que residem em localidades distantes e em áreas de maior risco social e, portanto, sanitário.
Fazendo parte de uma elite econômica e social do país, os médicos recém-formados, a maior parte deles originados de escolas privadas, com mensalidades em torno de 10 mil reais, não têm qualquer interesse ou disposição para enfrentar as duras lidas encontradas nos hospitais públicos e nas Unidades de Saúde do SUS, localizados nas periferias das cidades e nos rincões mais distantes.
Faltam médicos para atender aos pacientes dos serviços públicos de saúde e sobram médicos disputando clientela no setor privado. A questão das vocações na área médica é, sem sombra de dúvidas, um grande problema a ser enfrentado.
Depois de passar 6 anos estudando, muitas vezes, em instituições privadas, com altas mensalidades e mais 3 ou 4 anos em residências médicas altamente disputadas, a grande maioria desses profissionais alimenta expectativa de alcançar sucesso na profissão, aqui representado por alto retorno financeiro, o que não é compatível com os salários ofertados pelo SUS.
A pejotização da profissão contribuiu para essa precarização do trabalho médico, criando espaços de disputadas acirradas por negociações em Organizações Sociais de Saúde, filantrópicas, entre outros tipos de empresas da saúde.
Áreas como psiquiatria, pediatria, ginecologia, neurologia, oftalmologia, dentre outras, representam uma dor de cabeça para o gestor em saúde. São poucos os profissionais nessas especialidades e com baixo interesse por atuarem em serviços públicos.
A falta de uma carreira médica no SUS que seja compatível com a disputa com o setor privado, e que respeite a formação exigida e a necessidade da população, coloca o gestor público na mão de empresas privadas, tenham elas a denominação de Organizações Sociais ou qualquer outro nome que se opte por denominá-las.
O colapso do setor e a quase impossibilidade de contratação de profissionais médicos em algumas especialidades, associada ao desinteresse dos médicos por atuarem em locais não atrativos, coloca em condição de alta vulnerabilidade essas populações.
A situação vivenciada hoje na grave crise humanitária e sanitária dos Yanomamis é uma evidência irrefutável de que a situação da política de formação e alocação de profissionais de saúde, em especial dos médicos, está fora do controle e coloca em risco a vida das pessoas mais vulneráveis.
Os Yanomamis, e muitas outras etnias, estão desassistidos em razão de uma política genocida que decidiu exterminá-los. Os então mandatários, com diretriz emanada do próprio então presidente da República, que registrou essa intencionalidade criminosa, dolosa por natureza, publicamente em diversas ocasiões, foi reverberada por alguns de seus ministros e silenciamento de outros.
O projeto genocida permitiu que chegássemos a ter uma falta quase que absoluta desses profissionais nessas regiões. O grande desafio do atual governo é romper com essa cultura permissiva de ausência de profissionais para a assistência de nossos povos originários, assim como para tantas outras populações vulneráveis e vulnerabilizadas em toda a extensão do território brasileiro.
Enfrentar o problema da formação médica voltada para uma atuação ética, comprometida, solidária e com remunerações justas é um dos maiores desafios do atual governo. Não há como falar em concretização do Direito à Saúde, seja para os Yanomamis ou para qualquer outro cidadão brasileiro, sem encarar com coragem e criatividade o problema da formação médica, da avaliação de políticas de alocação de pessoal e valorização salarial estratégica.
Faltam médicos comprometidos ética, jurídica e socialmente com a vida e com a saúde das pessoas. Sobram médicos disputando o cliente privado, nas capitais e nos centros urbanos mais favoráveis cultural e economicamente falando. A maioria desejando permanecer em locais favoráveis aos seus desejos de reconhecimento social e econômico.
Faltam políticas públicas de educação e estratégicas no sentido de romper com os caminhos até então trilhados e construir novas modelagens que contemplem segurança jurídica e econômica para médicos que optem por servir à sociedade em locais hoje não desejados.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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