Jeff Bezos, fundador da Amazon e um dos homens mais ricos do planeta, afirmou, em entrevista semana passada à Fox News, que a inteligência artificial permitirá que uma pessoa trabalhe apenas três dias por semana e, ainda assim, sustente uma família inteira com uma única renda.
A previsão é sedutora, mas, quando parte de alguém que construiu sua fortuna sobre uma das maiores estruturas tecnológicas e comerciais do mundo, merece ser examinada com alguma desconfiança econômica.
No Brasil, a discussão sobre o fim da escala 6x1 promete proporcionar mais descanso, lazer e convivência familiar aos trabalhadores. A intenção é legítima. Entretanto, há uma questão pouco enfrentada: reduzir a jornada contratual significa necessariamente reduzir o tempo efetivamente dedicado ao trabalho?
Para milhões de brasileiros, cuja renda mal consegue atender às necessidades familiares, horas livres não representam necessariamente descanso. Podem representar a oportunidade de obter uma renda complementar. Nesse cenário, quem aparece para oferecer trabalho imediato, flexível e sem vínculo empregatício? A Amazon e outras plataformas digitais.
O trabalhador que antes dedicava seis dias da semana ao emprego formal poderá encontrar no tempo liberado a oportunidade de realizar entregas, transportar passageiros ou prestar serviços intermediados por aplicativos. Continuará trabalhando, talvez até mais, mas agora dividido entre um emprego protegido pela CLT e atividades submetidas a outro regime de contratação.
A ironia é evidente. Uma legislação concebida para reduzir o tempo de trabalho poderá ampliar a disponibilidade de mão de obra justamente para empresas que operam à margem das obrigações próprias do emprego tradicional. E a Amazon, fundada por Bezos, também participa desse mercado, inclusive por meio de plataformas de entregas realizadas por prestadores independentes.
Sob a perspectiva econômica, existe outra assimetria relevante. Uma pequena padaria, restaurante ou comércio, intensivo em mão de obra, não consegue reduzir a jornada de seus empregados sem reorganizar escalas, aumentar a produtividade ou eventualmente contratar mais trabalhadores.
Mantidos os salários, haverá elevação do custo por hora trabalhada, com efeitos particularmente sensíveis sobre negócios de margens reduzidas.
Já as grandes plataformas digitais possuem estruturas tecnológicas capazes de intermediar um contingente crescente de prestadores sem necessariamente assumir os encargos correspondentes à contratação celetista. Enquanto o pequeno empregador enfrenta o custo da redução da jornada, essas empresas poderão se beneficiar de uma oferta adicional de trabalhadores em busca de complementação de renda.
Não se trata de afirmar que Bezos esteja defendendo o fim da escala 6x1 brasileira, mas isso pode lhe beneficiar. Ganhos de produtividade podem, efetivamente, permitir trabalhar menos e viver melhor. O problema está em imaginar que esses benefícios serão distribuídos espontaneamente, ou que uma mesma alteração legislativa produzirá efeitos semelhantes sobre trabalhadores e empresas tão diferentes.
A economia não opera apenas com boas intenções. Opera também com incentivos, restrições orçamentárias, estruturas de mercado e capacidades desiguais de adaptação. A liberdade de utilizar o tempo livre para descansar é muito diferente da necessidade econômica de ocupá-lo com outra atividade remunerada.
Talvez Bezos esteja certo sobre o futuro: a inteligência artificial poderá produzir riqueza suficiente para sustentar famílias com apenas três dias de trabalho. Mas a verdadeira questão não será quanto a tecnologia permitirá produzir, e sim quem ficará com os ganhos dessa produtividade.
Afinal, uma lei pode reduzir o tempo que o trabalhador deve ao empregador sem reduzir o tempo que precisa vender ao mercado para sobreviver.
De toda sorte, como já sustentei anteriormente, o fim da escala 6x1 deve continuar como promessa de campanha eleitoral, o que talvez não seja ruim para o próprio trabalhador. Afinal, entre a possibilidade de trabalhar menos e a necessidade econômica de trabalhar mais, a redução da jornada poderá beneficiar menos quem deveria descansar e mais aqueles que estarão prontos para explorar economicamente suas horas disponíveis.