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Sociedade

Respeito, tolerância e reconhecimento: qual a diferença?

Quando se forma uma relação de reconhecimento, reconhece-se também as condições que nos trouxeram até aqui, bem como as que mantêm o estado de coisas neste lugar

Publicado em 17 de Maio de 2023 às 00:10

Públicado em 

17 mai 2023 às 00:10
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Respeito, tolerância e reconhecimento: o que esses termos têm em comum? Quando usamos uma dessas três palavras no nosso dia a dia, geralmente estamos nos referindo a uma posição que tomamos diante de outra pessoa ou grupo de pessoas. Assim, por exemplo, é comum ouvirmos a frase “eu respeito a sua opinião política, mas não concordo com ela”.
Possivelmente, a mesma frase pode ser usada com o verbo tolerar, “eu tolero a sua religião, mas não concordo com ela”. Ao usar o verbo tolerar, porém, o tom da afirmação parece ficar mais pesado, gerando um distanciamento maior entre os interlocutores. Parece que o tolerar é algo distante e até mesmo hierárquico. Aquele que tolera se coloca em uma posição superior ao tolerado.
E o reconhecimento, como soaria a mesma frase com o verbo reconhecer? “Eu reconheço a sua forma de vida (como válida, digna, boa, justa), mas discordo dela”. Vejam que ao usarmos o verbo reconhecer parece que intuitivamente ele demanda um esclarecimento que vem logo em seguida, por exemplo, eu reconheço que é uma opinião válida, poderia ser também, justa, correta, boa, muito bem elaborada, etc.
Dentre as três formas de expressar uma opinião divergente de forma a manter um debate cordial com outras pessoas, temos então que o respeito e o reconhecimento talvez sejam as formas mais sensíveis de expor a discordância.
Respeito, nesse contexto, diz mais do que simplesmente tolerar - eu aqui e você lá -, mas inclui a outra pessoa dentro de uma forma relacional com aquele que expressa a divergência. A forma relacional parece permitir que a conversa prossiga e, até mesmo, que uma pessoa mude de opinião a partir da conversa com a outra.
Encontro de gerações; mãos dadas
Crédito: Freepik
Já o reconhecimento parece ir mais além, o reconhecimento respeita a diferença e dá um passo adiante para dizer que é a diferença que une pessoas e grupos de pessoas que vivem em sociedade. Vejamos um exemplo importante nos dias atuais, eu reconheço que uma pessoa preta no Brasil herda o racismo histórico, o qual lhe impõe restrições, dores, violações de direitos, no seu dia a dia, racismo, este, muito possivelmente fomentado pela perversidade da minha branquitude.
É importante perceber o passo adiante que o reconhecimento dá; ele não é distante e hierárquico como a tolerância, ele não é compassivo e cordial como o respeito, ele integra de uma forma não usual as pessoas em um contexto muito mais amplo de violações históricas e estruturais de direitos humanos.
As violações de direitos humanos que retiram a dignidade de gerações e gerações de pessoas fazem parte do arcabouço reconhecido. Ou seja, quando se forma uma relação de reconhecimento, reconhece-se também as condições que nos trouxeram até aqui, bem como as que mantêm o estado de coisas neste lugar, muitas vezes de opressão, humilhação ou invisibilidade social.
É justamente esse passo adiante, esse ir além, que parece estar faltando a todos hoje em dia. Há um esfriamento dos corações possibilitado e fomentado por uma racionalidade vil que deixa de considerar que cada um carrega em si uma série de dores, histórias e culpas de uma vida toda.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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