Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Sociedade

Por que adotar uma criança com mais de 6 anos de idade?

No Espírito Santo, temos 879 pretendentes à adoção, sendo que 700 deles só aceitam crianças até essa faixa etária

Publicado em 15 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

15 abr 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Busca por pretendentes habilitados para adoção está suspensa no ES
No ES,  das 150 crianças acolhidas prontas para adoção, 86% têm mais de 8 anos Crédito: cat6719 | Pixabay
Nestes dias de afastamento social, nós, professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), temos nos mantido ativos por meio de participação em bancas de pós-graduação, de mestrado e de doutorado, trabalhamos na elaboração de artigos acadêmicos, orientação de trabalhos de conclusão de curso, projetos de extensão e de pesquisa. Dentre essas atividades, tive a alegria de participar, nesta segunda-feira, dia 13 de abril, de uma banca de mestrado sobre a adoção de crianças e os abrigos no Espírito Santo.
O trabalho orientado pela professora Beatriz Nader e defendido pela mestranda Stella Scantamburlo de Mergár, no Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Sociais, inspirou-me a tantas reflexões que as apresento aqui hoje, nesta coluna, a fim de pautar um tema importante para a sociedade capixaba: por que a maioria das pessoas na fila de adoção aqui no Estado só estão dispostas a adotar crianças de até 6 anos de idade?
Instigada por essa questão fui atrás das estatísticas do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) numa tentativa de descobrir o número atual de crianças e adolescentes aguardando adoção. No site, o TJES informa que “[h]oje, no Espírito Santo, das cerca de 150 crianças acolhidas prontas para adoção, 86% têm mais de 08 anos de idade, 49% fazem parte de grupos de irmãos e 23,5% possuem alguma necessidade especial”.
Essas informações nos mostram que a maioria das pessoas aguardando autorização para adoção de crianças no Estado, pretendentes que, frise-se, reclamam constantemente da demora no processo judicial de adoção, não estão dispostas a adotar crianças com idade acima de 6 anos, nem adolescentes.
Assim, seguindo o meu intuito investigativo, lembrei-me que no trabalho de mestrado da Stella Mergár ela traz também os dados constantes do Sistema Nacional de Acolhimento (SNA) para o Espírito Santo com relação aos pretendentes à adoção. Aqui temos 879 pretendentes à adoção, sendo que 700 deles só aceitam crianças com até 6 anos. Do total de 879 pretendentes somente 179 aceitam crianças e adolescentes acima de 6 anos.
Lembro que a adoção de crianças abrigadas só pode acontecer até o último dia anterior aos 18 anos de idade, depois de 18 anos essas crianças saem do cadastro de adoção do Sistema Nacional de Adoção e, se adotadas na fase adulta, o processo jurídico não envolve as proteções que a lei exige para adoção na infância e na adolescência. Ocorre que as crianças que saem dos abrigos raramente são adotadas na fase adulta, a maioria acaba seguindo um caminho solitário na vida, com muitas dificuldades e traumas.

REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Outro ponto importante que surge desta questão, é o fato de que a adoção de adolescentes caminha pari passu com o debate atual no Brasil sobre a redução da maioridade penal. Explico: existe um estigma em relação a adolescentes residentes em abrigos no Brasil, porque aqui os abrigos funcionam como uma espécie de cárcere.
Buscando entender o funcionamento de alguns abrigos na região que resido, em Vila Velha, por exemplo, verifiquei que os adolescentes que estão em abrigos não podem sair da casa  a não ser para ir à escola. Quaisquer outras atividades só são autorizadas se o abrigo tiver um funcionário específico para acompanhar os jovens, o que raramente acontece, pois a falta de recursos impede a contratação de funcionários para esta função específica.
Isso leva a uma situação intrigante, mesmo não sendo adultos e em plena situação de responsabilização penal, estas crianças e adolescentes estão sujeitos à guarda provisória pelo Estado, que os aprisiona em um abrigo sem a possibilidade de contato com a sociedade, retirando-os desde já da esfera social, do convívio público, como se estivessem sendo preparados para residirem nas unidades sócio-educativas do IASES ou nos estabelecimentos carcerários da Secretaria de Justiça do Estado.
O que nos entristece ao observarmos este cenário é o fato de que essas crianças poderiam encontrar novos lares e pessoas que pudessem acolhê-las de forma digna. Por isso, faço aqui um apelo àqueles pretendentes à adoção, que estão na lista do Sistema Nacional de Adoção, para que reflitam sobre esses números e revejam a sua posição; existem crianças com mais de 6 anos de idade que estão aguardando a adoção, vocês podem fazer a diferença na vida delas antes que seja tarde demais.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Bilhões de refeições ao redor do mundo estão em risco por causa da guerra no Irã, diz presidente de empresa de fertilizantes
Imagem de destaque
Por que Amsterdã proibiu qualquer propaganda de carne nas ruas
Imagem de destaque
O que pesquisador descobriu pedalando como entregador de apps por 6 meses: 'É terra de ninguém, risco de vida o tempo todo'

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados