Neste último domingo (19), foi eleito o novo presidente do Chile, o ex-líder estudantil Gabriel Boric. Foi numa campanha acirrada, cheia de fake news e com propagação do medo pelo outro candidato, que se coloca na extrema direita política, José Antonio Kast. Mas foi Boric que, superando o medo e enchendo o povo chileno de renovada esperança, entrou para a história como o presidente eleito mais novo do país, com apenas 35 anos de idade.
A ditadura militar chilena, implantada por um golpe de Estado em agosto de 1973, depondo o presidente democraticamente eleito, Salvador Allende, foi uma das mais violentas da América Latina. Foram milhares de mortos e torturados pelas forças militares e foram anos de uma política econômica experimental aplicando o neoliberalismo da Escola de Chicago à força no país.
Às custas de muita opressão, foi-se formando um país desigual que somente agora começa a fazer as pazes com a democracia novamente. A eleição de Gabriel Boric vem na mesma onda da primeira constituinte democraticamente eleita, que irá entregar ao povo chileno uma constituição construída pelo povo e para o povo em 2022.
É por isso que o Chile de 2022 é a grande esperança para toda América Latina, será um país de uma constituição democrática, inclusiva e participativa, com um governo progressista que venceu um candidato de extrema direita que defendia expressamente o legado da ditadura militar de Augusto Pinochet.
A situação no Chile é exemplar, também, por conta da promessa de mudança na política econômica, por alguns idolatrada, mas que em verdade construiu muros entre cidadãos, colocando um grande grupo da população em situação de pobreza e sem acesso a bens sociais básicos, como saúde, educação e cultura.
Pode-se dizer, com base nas práticas que se viram no Chile, que uma das grandes perversidades do século XX aconteceram quando ditaduras se encontraram com um modelo econômico neoliberal, sendo eles as duas faces da direita conservadora e excludente.
O mais doído de toda a onda conservadora de extrema direita que se vê no Chile e por todo o mundo, em verdade, é fruto do temor de uma parcela da população de perder um status econômico que lhe era garantido por forças políticas ditatoriais.
Da mesma forma que lá, aqui no Brasil temos uma grande parcela da população que endossa políticas de extrema direita, não em nome de qualquer ideal, mas sim por fins meramente financeiros. Ou seja, defendem um governante déspota desde que ele lhes garanta a continuidade de ganhos econômicos e a manutenção de suas propriedades.
São vários os lugares onde se vê, hoje em dia, essa disputa entre uma esquerda progressista que defende o acesso aos frutos da economia de um país a todos os cidadãos e uma direita extremada que quer proteger a qualquer custos os seus ganhos financeiros passados e futuros.
Para além de pensar em política, é preciso entender a lógica das campanhas presidenciais hoje em dia a partir do olhar dos mercados, são eles que verdadeiramente ditam a ordem do dia e mantém um ou outro governante no poder.
A dor, a forme, a opressão política são efeitos colaterais aceitos por economistas e investidores financeiros que do alto de uma pilha de dinheiro e títulos de propriedade sequer enxergam o sofrimento daqueles que estão na base da pirâmide social.
Que venha, portanto, 2022 e que ele seja um ano histórico para o Brasil também, assim como será para o Chile.