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Política internacional

Eleição dos EUA pode abrir caminho para ascensão de novo império

Se Trump realmente for reeleito neste complexo ano de 2020, o mundo continuará no caminho trilhado por uma política nacionalista, que apoia políticos que pretendem ressignificar o conceito de democracia

Publicado em 04 de Novembro de 2020 às 09:57

Públicado em 

04 nov 2020 às 09:57
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump Crédito: Reprodução/Instagram @whitehouse
Na quarta-feira (3) à noite, à medida que os votos foram sendo contados nos Estados Unidos, foi-se delineando um cenário de esperança pelo qual a maioria das pessoas no mundo parecia ansiar, com um mapa norte-americano inteiramente pintado de azul dando a vitória a Joe Biden, candidato democrata, opositor de Donald Trump, o atual presidente. Mas enquanto entrávamos na madrugada, tudo foi mudando, e hoje cedo o mapa já parecia bem mais vermelho, a cor do republicano Trump, foi então que o atual presidente norte-americano, mesmo sem a contagem do total dos votos, declarou vitória e acusou seus adversários de fraude eleitoral.
Na história da humanidade já se viu a ascensão e a queda de grandes impérios, lembramos comumente do grande Império Romano, mas temos também a perda de importância e poder ao longo do tempo pelo Império Britânico e, talvez agora, estejamos vendo a queda do Império Americano. Não que isso vá acontecer imediatamente, normalmente aqueles que vivem acontecimentos importantes na história não conseguem dizer que estão vivendo algo que vai definir o futuro da humanidade. Somente aqueles que olham o passado em retrospectiva, conseguem com a visão em perspectiva ver o que seria então uma mudança radical na história mundial.
O Império Americano ditou, por muitos anos, a ordem do dia da política interna e internacional brasileira. Até mesmo, infiltrados ou ostensivamente, forneceram armas, inteligência e apoio à Ditadura Militar brasileira de 1964. Os Estados Unidos em sua política externa nunca foram bonzinhos com o Brasil, sempre pautaram o seu agir num cálculo estratégico de ganho econômico e de manutenção de poder na região da América do Sul e América Latina.
De todos os males que ao longo da história a interferência política norte-americana causou ao Brasil, parece-nos que o apoio de Trump ao candidato e agora presidente do Brasil Jair Bolsonaro e a sua família tem causado tamanha disfunção das instituições públicas e retrocessos nas políticas públicas de acesso a direitos como nunca se viu no nosso país. Da mesma forma que nos Estados Unidos Trump praticou uma política interessada em minar e desfazer todos os avanços progressistas da Era Obama, aqui Bolsonaro vem fazendo o mesmo, em especial com as conquistas progressistas de direitos sociais alcançados por meio de muita luta.
Feridas abertas, expostas ao mundo na Era Trump nos Estados Unidos, como o racismo sistêmico, a simbiose entre esfera pública e privada, a misoginia tolerada, a culto a um líder messiânico, todas elas vivemos, em escala menor ou maior, aqui no Brasil também. Política e religião voltaram-se a unir em um mundo altamente complexo, de uma forma que ninguém esperava. Há indicações fortes de que a ordem mundial está mudando e as conquistas alcançadas graças a uma pax americana que prevaleceu até a Era Trump, será desfeita para dar lugar a uma ordem mundial mais egoísta, que não valoriza os direitos humanos e desrespeita o multilateralismo.
O certo agora, na manhã desta quinta-feira (4), é que ainda há votos a serem contados nos Estados Unidos que podem mudar a situação das eleições americanas. O mundo continua em suspense, entre aliados e inimigos dos Estados Unidos, todos esperando o resultado final das eleições. O problema que se apresenta, porém, é de natureza muito maior, e diz respeito ao próprio conceito de democracia e voto popular.
Em seu discurso da madrugada Donald Trump anunciou que vai recorrer ao Poder Judiciário norte-americano para que seja suspensa a contagem de votos nas eleições. Como aprendemos durante todo o período eleitoral, nos Estados Unidos grande parte da população vota pelo correio e são justamente esses votos que estão sendo aguardados para serem contados em estados-chave para a vitória do candidato concorrente de Trump, o ex-vice-presidente Joe Biden.
O princípio norteador da democracia, como sistema político e de governo, é que se ouça a voz do povo de um país, a voz de todos, para que assim seja estabelecido um contexto efetivo de maioria para que a partir daí sejam definidas as políticas públicas sociais, econômicas, financeiras, educacionais, de saúde, entre outras. O problema das atuais eleições norte-americanas é que somente a voz de alguns foram ouvidas até agora. As informações que nos chegam pela manhã é de que ainda faltam muitos votos a serem contados, que foram enviados pelos correios e precisam ainda ser contabilizados para um resultado que espelhe a realidade dos anseios da sociedade norte-americana.
E, talvez o pior, do cenário que está se desenhando, é o fato de que na Era dos Impérios, o Império Norte-Americano dita a ordem do dia mundial, ou seja, influencia a vida de todos nós em várias partes do mundo onde não temos o direito de votar para presidente dos Estados Unidos. Somos influenciados diretamente pelas políticas públicas, em especial, as políticas de defesa, de migração, de direitos humanos e a política internacional de uma forma geral.
Se o presidente Trump realmente for reeleito neste complexo ano de 2020, o mundo continuará no caminho trilhado por uma política nacionalista defendida por Trump, que apoia Jair Bolsonaro, Tayyip Erdoğan, Viktor Orbán, Boris Johnson, políticos que pretendem ressignificar o conceito de democracia e de direitos humanos, negando acesso a direitos, como o direito de voto a minorias, reformulando conceitos construídos por anos a fio pela sociedade mundial desde o fim da II Guerra Mundial, quando os EUA passaram a liderar o mundo ocidental.
Ainda resta uma esperança: se os valores da democracia forem respeitados pelo Poder Judiciário norte-americano e o Judiciário decida que todos os votos devem ser contados, saberemos, verdadeiramente a vontade popular daquele país e, quem sabe assim, talvez tenhamos uma mudança no atual cenário mundial.
Importante, então, seguir o conselho de Joe Biden, ter paciência e confiar que os valores da democracia se sobreponham aos anseios partidários dos juízes e juízas que vão decidir esta eleição americana. O que acontecer por lá, definitivamente, vai influenciar e muito a política brasileira e a de muitos países, por gerações e gerações, podendo até mesmo abrir caminho para a ascensão de um novo Império, a China.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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