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Beatriz Seixas

Dinheiro extra do petróleo não deve tapar rombo da previdência no ES

Governo do ES avalia aplicar recursos de Participações Especiais para cobrir aposentadorias

Publicado em 15 de Fevereiro de 2019 às 01:18

Públicado em 

15 fev 2019 às 01:18
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas

O Parque das Baleias, uma das maiores áreas de exploração de petróleo do país, fica no litoral Sul do Estado. Crédito: Gazeta Online
O Espírito Santo está prestes a receber uma bolada de R$ 1,7 bilhão no curto prazo e outros R$ 13 bi nos próximos 20 anos. O reforço para os caixas do governo do Estado e de municípios produtores de óleo e gás é fruto de um acordo em fase final de negociação, entre a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), que unifica os campos do Parque das Baleias, no Litoral Sul capixaba, e garante um repasse maior de receitas, com a chamada Participação Especial (PE).
A expectativa é que a partir de abril já comece a entrar recursos extras nos cofres públicos. Mas, para onde eles serão direcionados, ainda é uma incógnita. O governo estadual vem trabalhando com algumas possibilidades, que vão desde usar o dinheiro para realizar investimentos em projetos estruturantes até direcioná-lo para pagar o rombo da Previdência, que, em 2019, é estimado em R$ 2,2 bilhões.
A ideia da equipe de Casagrande é criar um fundo soberano, seguindo a lógica de outros existentes pelo mundo. Inclusive, essa é uma das ações que constava no programa de governo apresentado durante a campanha eleitoral pelo socialista.
O procurador geral do Estado, Rodrigo de Paula, que vem acompanhando o desfecho do acordo sobre o Parque das Baleias, explica que há um interesse de construir um fundo que garanta a aplicação mais adequada para os recursos petrolíferos.
“Queremos criar uma política de aplicação correta, bem estruturada e que pense nas gerações futuras. Afinal, estamos falando de recursos naturais finitos. Ele (o fundo) poderá contemplar projetos de infraestrutura e, eventualmente, poderia ser usado para cobrir o déficit previdenciário. Mas não temos nada consolidado. Estamos aguardando o acordo ser efetivamente celebrado”, ponderou o procurador ao observar que a assinatura final deve acontecer no mês que vem.
A proposta do governo de criar um fundo com os recursos do petróleo que estão por vir é oportuna e vai ao encontro do que países que são referência, como a Noruega, adotaram como modelo para garantir o uso sustentável do dinheiro. Mas ter no radar a possibilidade de comprometer parte da renda com o pagamento de aposentados é temerário e não ataca o problema real que é a necessidade do sistema previdenciário passar por uma reforma severa.
Para especialistas, gastar o que foi arrecadado com royalties e participações especiais para cobrir despesas já contratadas é desvirtuar a finalidade desses recursos. É pensar no passado e não no futuro. É desperdiçar a criação de oportunidades para as próximas gerações.
O economista e diretor do Cbie (Centro Brasileiro de Infraestrutura), Adriano Pires, afirma que o Espírito Santo não pode cometer o mesmo erro de outros produtores. “A gente errou muito no passado ao gastar dinheiro dos royalties para cobrir custos fixos. É só olhar para o Rio de Janeiro. É um absurdo o que foi e está sendo feito com os recursos lá. Esse dinheiro deveria ser guardado para os futuros brasileiros e investido para atrair e estimular setores da economia que não estão ligados à área de óleo e gás.”
Pires sugere que uma boa forma de usufruir no presente e no futuro dos recursos é colocando esse dinheiro todo para render num fundo sob a administração de bancos privados. “Assim você guarda um montante para as gerações futuras, mas utiliza a rentabilidade e dividendos em investimentos em infraestrutura e saneamento desde agora.”
Outra orientação do economista é que ao formar o fundo soberano, o Estado preveja um limite para gastos extraordinários. “É preciso colocar um teto. Por exemplo, de 20%. Porque aí, se acontece uma catástrofe no Espírito Santo, o recurso pode ajudar, mas sem desfalcar o caixa.”
Outra preocupação na formulação do fundo é não amarrar as receitas a setores específicos. A vinculação das verbas para áreas como saúde e educação, em algum momento, pode engessar os investimentos que o Estado planeja fazer.
Para Adriano Pires, é equivocada a decisão de atrelar os royalties, por exemplo, à educação. “Isso é mais uma atitude populista do que geradora de resultados. Porque se essa receita estiver amarrada, como o gestor público vai fazer na hora que o preço do barril do petróleo cair no mercado internacional ou quando a produção de óleo e gás se esgotar? Não dá para você querer investir na educação, contratando mais professores, com esse dinheiro. Afinal, quando o recurso for menor, não vai ser possível pagar ninguém.”
O fato é que não dá para criar um fundo no improviso. É preciso muita cautela e um olhar estratégico para o médio e longo prazo. O Espírito Santo é privilegiado por estar entre os três maiores produtores de óleo do país. Portanto, desperdiçar os recursos do petróleo é jogar fora o potencial de desenvolvimento do Estado. Contamos com a sorte geológica, agora precisamos contar com uma gestão de qualidade. Abril já está batendo à nossa porta e, quando os recursos chegarem, é preciso que o Estado esteja pronto não só para recebê-los, mas para carimbar o futuro dos capixabas.
Eco$nomia - Tirinha do Amarildo - 15/02/2019 Crédito: Amarildo
 

Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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