A presidência relâmpago de Vasco Cunha Gonçalves no Banestes – ele assumiu na segunda-feira (28) e foi preso no dia seguinte, durante operação Circus Maximus, que identificou um esquema criminoso de pagamento de propinas no Banco de Brasília (BRB) – trouxe à tona um outro problema que o governo do Estado, maior acionista do Banestes, criou para a instituição: a mudança drástica da diretoria. Dos sete diretores da gestão passada, apenas Silvio Henrique Brunoro Grillo, que está interinamente no comando do banco, se sustentou no cargo após a troca de governo.
A alteração em uma tacada só deixou funcionários e o mercado surpresos, para não dizer atônitos. O susto em si não está ligado aos novos nomes - e aqui é preciso deixar bem claro que a coluna não está lançando dúvidas sobre a competência e a idoneidade de quem fará parte do novo quadro. A surpresa vem do fato de que esse tipo de movimento não é comum no meio empresarial e financeiro, especialmente quando se observa o histórico do banco, que nos últimos anos vem entregando bons números. Ao que tudo indica, 2018 fechará com lucro recorde, ou seja, superior ao de 2017, quando o lucro líquido foi de R$ 175,2 milhões.
Para funcionários do banco e especialistas ouvidos pela coluna, o governo errou ao tomar essa decisão, que já começa a trazer impactos no trabalho que vinha sendo feito pelas equipes e, consequentemente, pode refletir nos resultados. “Não se faz esse tipo de descontinuidade em uma instituição financeira. O que aconteceu foi que o banco foi tratado como um órgão da administração pública direta, o que é algo ultrapassado. Não faz sentido trocar o presidente e mais seis diretores de uma empresa que está indo bem. Ninguém imaginaria a prisão do Vasco, mas ao mudar praticamente todo o quadro, Casagrande deu chance para o azar. Sua decisão foi claramente um cacoete político”, avalia um executivo da área.
Internamente, nas palavras de um funcionário do Banestes, o clima é de consternação. Segundo ele, as mudanças paralisaram o banco. “O sentimento é de frustração da equipe inteira. Nesse episódio, o pior nem foi a prisão do presidente, mas o rodo que foi passado na diretoria. Isso gerou uma ruptura muito grande. O banco parou! E confesso que estou preocupado com o resultado de janeiro, que já é um mês fraco. Sem comando, sem ter gestores para cobrar, as equipes perderam o rumo”, desabafa.
POSSÍVEIS NOMES PARA A PRESIDÊNCIA
A confusão no Banestes já neste início de ano reacende um debate caloroso que vai e volta no mercado capixaba: a privatização do banco. Quem defende a saída da instituição das mãos da iniciativa pública para a privada tem o argumento reforçado neste momento, em que a influência política ficou clara diante da mudança de governo. “Essa é a fragilidade de uma instituição pública gerir o banco. Porque mesmo apresentando um bom desempenho, está suscetível às decisões de políticos”, ponderou uma fonte.
“A verdade é que se o banco fosse privado, diante dos bons resultados, o presidente nem teria sido trocado. O problema é que não houve uma avaliação se a gestão anterior era boa, não foi avaliado o mérito da entrega. Mais uma vez prevaleceu a acomodação política”, criticou um empresário.
Para apagar esse incêndio, especialistas acreditam que o governador Casagrande tem ser ágil e certeiro na escolha do novo presidente, que terá ainda o desafio de conduzir uma diretoria que não teve a sua anuência. Nos bastidores, três pontos têm sido colocados como essenciais. O novo chefe tem que ter excelência técnica, um histórico ético inabalado e deve ser conhecido.
Até agora, o governador não falou sobre possíveis nomes. Mas alguns já têm circulado no meio, como o de Guilherme Dias e Bruno Negris, ambos já presidiram o Banestes e apresentaram bons resultados. Também já foi ventilado o de Maurício Duque, que foi secretário da Fazenda na gestão passada de Casagrande.
Seja lá quem for o escolhido para o cargo, é importante que o novo gestor continue a conduzir o Banestes de forma profissional. Por muitos anos, o banco foi instrumento de má gestão e até de corrupção, mas dos anos 2000 em diante ele passou por forte reestruturação se tornando uma referência, patamar que não pode ser perdido.
Nova diretoria
Se aprovados pelo Banco Central, os novos diretores do Banestes serão:
1 - Diretor de Administração: Alcio de Araujo
2 - Diretor de Administração de Recursos de Terceiros e Distribuição: Marcos Amaral Vargas
3 - Diretor de Negócios e Recuperação de Ativos: Carla Barreto
4 - Diretor de Riscos e Controle: Carlos Artur Hauschild
5 - Diretor de Tecnologia: Silvio Henrique Brunoro (presidente interino)
6 - Diretor de Rede: Fernando Valli Cardoso
7 - Diretor Financeiro: a definir
Observação 1
Alcio de Araujo é quem Casagrande havia indicado para a presidência da Cesan no dia 4 de dezembro de 2018. Acontece que apenas 10 dias depois ele foi trocado por Cael Linhalis. O motivo da mudança foi um impedimento dentro da nova lei das estatais. Alcio era presidente de uma empresa de vigilância no Estado, e, por conta do cargo, assinou um contrato há alguns meses com a Cesan, fato que inviabilizou a sua nomeação.
Observação 2
Carlos Hauschild foi trazido por Vasco Gonçalves para ocupar a direção de Riscos e Controles. Eles trabalharam juntos no BRB. Nos bastidores, ninguém arrisca dizer qual será o seu futuro no banco.
Observação 3
O atual diretor financeiro João Fabio de Souza Tavares já avisou, internamente, que vai deixar o Banestes. Ainda não se sabe quem assumirá seu lugar.
Medindo os riscos
O governador Renato Casagrande (PSB) contou à coluna que o acordo feito com a União e a Anac, em que o Estado desiste da ação judicial para barrar a concessão do Aeroporto de Vitória no mesmo bloco de Macaé, foi uma questão de estratégia. Para ele, se isso não fosse feito, o Espírito Santo correria o risco de ficar fora do leilão previsto para março.
Nem cá, nem lá
“A visão do governo passado de querer colocar aeroportos regionais capixabas no mesmo pacote estava correta. Mas a visão do governo federal, de contemplar o país como um todo, também faz sentido. Então, insistir na ação poderia inviabilizar a participação de Vitória. Aí seria ainda pior”, avaliou o chefe do Executivo.
Na madrugada
Na última semana, Casagrande viajou para uma agenda no Rio de Janeiro. Enquanto esperava o embarque no terminal capixaba, várias pessoas aproveitaram para tietá-lo. Beijos, abraços e fotos. Detalhe: o assédio aconteceu bem cedo, às cinco da matina.
Viva fevereiro
A última semana de janeiro não foi nada amistosa para o Estado. Temores em relação às operações da Vale e da Samarco, prisão do então novo presidente do Banestes e crise na Fertilizantes Heringer movimentaram a economia que, em geral, é considerada morna neste período. Desta vez, pegou fogo!
Vamos conferir em 2020
O presidente da Findes, Léo de Castro, descarta que tentará um novo mandato ao final da sua gestão, no próximo ano. Ele diz ser contra à reeleição em qualquer ambiente. Quem dera que outras lideranças e políticos seguissem a mesma lógica. “Acho que a reeleição te enfraquece no enfrentamento das questões mais importantes, porque você começa a raciocinar no próximo pleito e não toma as decisões que tem que tomar."
Comércio exterior prejudicado no ES
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicou uma portaria que pode trazer prejuízos milionários para o Espírito Santo. Trata-se da 183/2018, que exclui recintos capixabas, como terminais portuários, de operacionalizarem produtos importados de origem animal comestível, a exemplo do bacalhau.
Com a exclusão de áreas para realizar essas operações, conforme prevê o texto publicado no Diário Oficial em 24 de dezembro de 2018 e editado em 16 de janeiro deste ano, o Estado pode perder receitas e empregos. A arrecadação com ICMS, por exemplo, pode cair R$ 32 milhões por ano em função da migração de companhias para outros Estados.
A medida pegou o setor de comércio exterior de surpresa e já vem gerando reação de algumas entidades. O Sindiex protocolou no governo do Espírito Santo um pedido de apoio político e adoção de providências imediatas junto ao Mapa para anular ou revisar a portaria.
O presidente da instituição, Marcilio Machado, também esteve reunido com representantes do Mapa, do Vigiagro-ES e da Defesa Agropecuária para buscar uma solução para o problema. Segundo ele, a norma foi definida pelo governo de forma unilateral. “Atuaremos nas esferas administrativas e jurídicas para manter as atuais operações com produtos de origem animal e não perder ainda mais a competitividade das importações pelo Estado”, ponderou Machado.
O presidente do Sindiex reforçou ainda a importância dessas atividades para o setor importador capixaba ao citar que os produtos de origem animal foram responsáveis pelo faturamento, em 2018, de R$ 800 milhões, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.