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Sextas Crônicas

Quem tem "rizz" tem. É disso que se trata a palavra do ano de 2023

Paolla de Oliveira tem "rizz", é incendiária, é um flerte do universo traduzido em centelha. Diante de quem possui essa existência tórrida, podemos agradecer ou praguejar

Públicado em 

29 dez 2023 às 01:45
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Atriz
Paolla Oliveira Crédito: Instagram
Sempre gostei de namorar palavras. Sou curiosa com o flerte das sílabas. Quando uma palavra se deita sobre o papel, deseja ser lida para além da língua.
Neste dezembro, que já dura 89 anos, a despeito de encontros, risadas, lágrimas e a deselegância de um vazamento hidráulico, fui em busca do indizível nas palavras. Maratonei cursos e percursos sobre escrita, voz e psicanálise.
Quando cansada, congelei as sinapses arrastando tela nas redes sociais. Foi lá que me deparei com "rizz", a palavra do ano 2023, escolhida pelo Dicionário Oxford.
"Rizz" é uma palavra esperta, contém fagulhas, tem olhos, sorriso, cheiro, não é apenas uma redução da palavra "carisma". Como diria Vivian Steiberg, professora de literatura da USP, que eu tive o prazer de conhecer neste final de ano, não é disso que se trata.
Embora tenha se originado nas entranhas da palavra carisma, "rizz" vai além, tem vida própria, é algo como o brasileiríssimo borogodó, um substantivo que serpenteia entre as letras e faz a pessoa materializar-se à sua frente.
Quem tem "rizz" parece estar sempre em estado de flerte com a vida. Talvez por isso essa palavra tenha despertado um encantamento instantâneo e viralizado ao ponto de desbancar tantas outras concorrentes na eleição do Oxford.
A voz de "rizz" falou mais alto. É uma palavra com o som da gargalhada gostosa, do craquelar das folhas em uma escuta atenta, do farol no fundo dos olhos que brilham. Mora no canto da boca que sorri. Diogo Nogueira tem borogodó, existe lânguido, escorre no mundo. Paolla de Oliveira tem "rizz", é incendiária, é um flerte do universo traduzido em centelha. Diante de quem possui essa existência tórrida, podemos agradecer ou praguejar.
Talvez estejamos todos torcendo por mais carisma nos humanos, natural ou até o aprendido — por que não? Conheço um grande professor da arte do carisma, e uma enormidade de pessoas carismáticas. Também tenho a sorte de conhecer gente cheia de borogodó, com olhos de ressaca, como os da Capitu, de Machado de Assis. Com mistérios e malemolência. Mas ainda me faltava uma palavra para traduzir aquela pessoa imediatamente magnética, aquela bússola que atrai e guia meio mundo. Aquela, cheia de "rizz".

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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