Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Sextas Crônicas

Com quantos janeiros se faz um bom dezembro?

Este ano, especificamente, percebi que dezembro começou em novembro e, logo na primeira semana, cabeças superprodutivas já demostravam o cansaço de décadas

Públicado em 

15 dez 2023 às 01:30
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Dezembro dói? Parece que sim.
Antes, analogicamente, uma dor mais contida, mais secreta, disfarçada. Dor para os íntimos.
De repente, todo mundo resolveu falar sobre a dor de dezembro. Está nas redes, está no meio de nós. Parece que a dor de dezembro virou unanimidade.
Não resisto ao Nelson Rodrigues, que brinca no meu pensamento, enquanto aguardo um idoso, duas adolescentes falantes e seus cachorros pacatos e um homem cabisbaixo cruzarem a faixa de pedestres com suas sacolas de compras.
Meu direito a um minuto de distração foi interrompido pelo buzinaço na rotatória.
Pelo retrovisor olho o buzinante e envio uma mensagem telepática: Não adianta buzinar, o engarrafamento é nosso, eu também estou nele. E lá vem Nelson Rodrigues novamente, desta vez, falando dos cretinos fundamentais.
Olhando mais uma vez para o buzinante, vejo seus olhos de desespero. Ele estava transformado pelo bicho da pressa. O corpo rígido ao volante, lábios apertados. Assim que pude, dei passagem. Obviamente, ele continuou agarrado à buzina e preso no trânsito – como todos nós. O coitado estava terrivelmente acometido de dezembrose, essa doença que traz o fim do mundo para dentro da gente.
Calendário
Calendário Crédito: Shutterstock
Talvez eu já tenha estado exatamente no mesmo lugar dele. O nó do trânsito subiu à garganta. Tantos dezembros estragados por tolices. Correria, culpa, tristeza, frustrações, saudades, o fim de ano é um amplificador de dores.
Este ano, especificamente, percebi que dezembro começou em novembro e, logo na primeira semana, cabeças superprodutivas já demostravam o cansaço de décadas. Mas e a sabedoria, em que canto de dezembro se esconde? E onde fica a alegria de dezembro, que aqui no Hemisfério Sul marca o começo do verão, esta época deliciosa do “desassossego no coração”? Um coração em alerta por sensação térmica de 45 graus, é verdade, apreensivo com as questões na Guianapartido pela dor dos alagoanostriste com guerras sendo normalizadas. Mas também um coração que encontrou algo de paz nos dezembros, a partir da caminhada pelos janeiros.
Tudo é ficção. Precisamos contar histórias melhores sobre os dezembros. A minha melhor história de dezembro é a do nascimento dos meus filhos gêmeos. É para esse lugar que corro toda vez que amanheço com sinais de dezembrose.
Sei que não parece, mas ainda estamos na metade do mês. Dá tempo de reescrever este capítulo e trocar a pressa pela desaceleração da chegada. Para as dores, poesia. Para tudo, mais amor. Acho que Drummond concordaria.
Dezembro
Quem me acode
à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Alerta de chuvas intensas no Norte e Noroeste do ES neste sábado
Imagem de destaque
Vídeo mostra atropelamento de adolescente na Leitão da Silva em Vitória
Imagem BBC Brasil
Missão da Artemis 2 à Lua foi um sucesso, mas agora é que vem a parte difícil

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados