Dezembro dói? Parece que sim.
Antes, analogicamente, uma dor mais contida, mais secreta, disfarçada. Dor para os íntimos.
De repente, todo mundo resolveu falar sobre a dor de dezembro. Está nas redes, está no meio de nós. Parece que a dor de dezembro virou unanimidade.
Veja Também
Não resisto ao Nelson Rodrigues, que brinca no meu pensamento, enquanto aguardo um idoso, duas adolescentes falantes e seus cachorros pacatos e um homem cabisbaixo cruzarem a faixa de pedestres com suas sacolas de compras.
Meu direito a um minuto de distração foi interrompido pelo buzinaço na rotatória.
Pelo retrovisor olho o buzinante e envio uma mensagem telepática: Não adianta buzinar, o engarrafamento é nosso, eu também estou nele. E lá vem Nelson Rodrigues novamente, desta vez, falando dos cretinos fundamentais.
Olhando mais uma vez para o buzinante, vejo seus olhos de desespero. Ele estava transformado pelo bicho da pressa. O corpo rígido ao volante, lábios apertados. Assim que pude, dei passagem. Obviamente, ele continuou agarrado à buzina e preso no trânsito – como todos nós. O coitado estava terrivelmente acometido de dezembrose, essa doença que traz o fim do mundo para dentro da gente.
Talvez eu já tenha estado exatamente no mesmo lugar dele. O nó do trânsito subiu à garganta. Tantos dezembros estragados por tolices. Correria, culpa, tristeza, frustrações, saudades, o fim de ano é um amplificador de dores.
Este ano, especificamente, percebi que dezembro começou em novembro e, logo na primeira semana, cabeças superprodutivas já demostravam o cansaço de décadas. Mas e a sabedoria, em que canto de dezembro se esconde? E onde fica a alegria de dezembro, que aqui no Hemisfério Sul marca o começo do verão, esta época deliciosa do “desassossego no coração”? Um coração em alerta por sensação térmica de 45 graus, é verdade, apreensivo com as questões na Guiana, partido pela dor dos alagoanos, triste com guerras sendo normalizadas. Mas também um coração que encontrou algo de paz nos dezembros, a partir da caminhada pelos janeiros.
Tudo é ficção. Precisamos contar histórias melhores sobre os dezembros. A minha melhor história de dezembro é a do nascimento dos meus filhos gêmeos. É para esse lugar que corro toda vez que amanheço com sinais de dezembrose.
Sei que não parece, mas ainda estamos na metade do mês. Dá tempo de reescrever este capítulo e trocar a pressa pela desaceleração da chegada. Para as dores, poesia. Para tudo, mais amor. Acho que Drummond concordaria.
Dezembro
Quem me acode
à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.