As Olimpíadas de Tóquio trouxeram algumas singularidades. Em primeiro lugar, ainda que nomeadas Olimpíadas de 2020, somente se realizaram em 2021; coisas da pandemia. Em segundo lugar, as necessárias precauções devido à Covid-19 fizeram com que a preparação de atletas fosse prejudicada.
Trouxeram também boas novas que demonstram avanços de movimentos em curso há algum tempo. O número de atletas mulheres e de LGBTQ+ reflete décadas de suas lutas em diversos países e certamente servirão de estímulo para que outros enfrentem raízes históricas de discriminações que precisam ser superadas no mundo como um todo.
A participação de asiáticos e africanos em equipes de seus países ou de seus descendentes disputando em equipes da Europa e das Américas também aumentou. O chamado ideal olímpico originalmente eurocentrado ganha, dessa forma, um sentido cada vez mais global.
As possibilidades de ascensão social e econômica através do esporte também marcaram recordes em Tóquio. Em muitos casos, essa ascensão se dá através da migração de atletas atraídos por condições materiais e técnicas muito mais favoráveis em países mais ricos. Ainda assim, há que se reconhecer que os resultados desses atletas servem de estímulo a jovens em suas terras de origem.
Estímulo a jovens que certamente também virão de atletas de origens humildes e muitas vezes vitimas de discriminações regionais, racistas e homofóbicas, entre outras. Felizmente, casos como os de Ana Marcela Cunha, de Rebeca Andrade e de Ítalo Ferreira se repetem tanto entre quem a Tóquio foi e de lá levou medalha quanto entre os que só de por lá terem chegado demonstraram a superação de discriminações. Superações que precisam ser entendidas para muito além de conquistas individuais. Afinal, elas são fruto também de conquistas sociais através de políticas de inclusão que precisam ser ampliadas.
Tóquio 2020 também registrou o ingresso do skate como modalidade olímpica. Eminentemente urbano, o skate segundo quem o pratica é mais do que um esporte, é um modo de vida. Alegre e descontraído, é fruto da criatividade de quem mora em cidades e nelas se propõe colocar alegria e graça mesmo em espaços pouco hospitaleiros.
Por isso, as medalhas conquistadas por Rayssa Leal e por Pedro Barros precisam inspirar prefeitos a abrirem espaços para mobilidade urbana individual em suas cidades que contribuam para superar o monopólio hoje exercido pelo automóvel. Pistas protegidas para a circulação de ciclistas e skatistas é um passo necessário e certamente tornarão as cidades brasileiras mais saudáveis e alegres.
Que o congraçamento entre humanos valorizado e ampliado nas Olimpíadas de Tóquio desencadeie ações de pessoas, organizações e governos voltadas para a construção de um novo normal onde preconceitos sejam exceções menos que regras e onde a convivência entre diferentes seja mais leve e fluida, como parece ser a entre skatistas.