Inexiste no Espírito Santo uma única atividade econômica que se destaque em sua estrutura produtiva que tenha surgido e se sustentado exclusivamente pelas chamadas forças de mercado. Todas são fruto de políticas de apoios políticos e financeiros e de incentivos fiscais.
Algumas continuam sendo contempladas nesses apoios e incentivos por mais consolidadas que estejam empresarialmente e por mais que causem danos ambientais irreparáveis. É mais do que chegada a hora de uma revisão desses apoios; da busca de novas alternativas de crescimento; e do desenho e operacionalização de uma política de desenvolvimento que vá além de objetivos de crescimento econômico e coloque o ser humano e a natureza como centrais.
As políticas de crescimento da economia capixaba têm marcos bem claros ao longo de mais de um século. O primeiro, aquele de apoio, à cafeicultura através de acesso à terra, crédito, financiamento, assistência técnica e infraestrutura de escoamento, com destaque para a administração de Muniz Freire.
O segundo, o de fomento à industrialização retardatária através de incentivos fiscais a atividades industriais que substituíam importação e agregavam valor ao que já exportava. Nesse fomento, distinguem-se os governos Christiano D. Lopes, no apoio industrialização de pequeno/médio porte, e Arthur Carlos G. Santos, na atração dos Grandes Projetos de Impacto.
O terceiro, graças à clareza de Alvaro Abreu com relação à importância de inovações para a competitividade empresarial, deu-se no governo de Max Mauro através do apoio à implantação de centros de desenvolvimento tecnológico em setores novos na economia capixaba – com destaque para confecções, metalmecânica e mármore/granito.
O quarto marco de política de crescimento estadual foi o apoio dado às compras locais dos Grandes Projetos (GPs) em suas respectivas fases de expansão. No governo Vitor Buaiz, o licenciamento ambiental para essas expansões foi condicionado ao acesso por parte de empresas locais às demandas dos GPs. Mais do que isso, o então diretor do Bandes Guilherme Lacerda, articulou apoio financeiro a empresas que se capacitavam para internalizarem no estado o máximo possível da compras desses projetos.
A rápida retrospectiva das diversas políticas de crescimento ao longo de mais de cem anos serve para ilustrar que elas foram diversas e plurais e que responderam de forma singular a cada momento da formação socioeconômica capixaba. Serve também para alertar que a nova política de crescimento que o Espírito Santo precisa buscar é mais complexa do que as anteriores.
Complexidade provocada tanto por questões externas – a emergência climática, as crises de alimentos, água e energia, dentre outras – quanto por aquelas especificamente locais. Os interesses políticos em torno do crescimento econômico capixaba são cada vez mais diversos em função das especificidades empresariais e dos desafios tecnológicos que antigos e novos setores econômicos possuem.
Complexidade que exige posturas dos governos estadual e municipais que evite simplismos de planos que pouco dialogam entre si e que respondem mais a exigências do marquetismo do momento do que a uma visão articulada de desafios e de formas sistêmicas de a eles responderem. Complexidade que exige maior participação social nos processos de diagnóstico, desenho de soluções e suas respectivas operacionalizações.
Complexidade porque, além de uma nova política de crescimento, o Espírito Santo precisa de uma de desenvolvimento. O crescimento econômico é condição necessária, mas está longe de ser suficiente para que o desenvolvimento humano se dê. Esse tem outras dimensões - destaque para a equidade na distribuição do progresso econômico; valorização das artes e da espiritualidade; convívio respeitoso com o plural e com o diverso entre humanos e entre eles e a natureza – que precisam ser incorporadas no desenho e operacionalização de políticas públicas.
Tarefa complexa, mas para a qual o Espírito Santo tem instrumentos para dela bem se desempenhar. Forças econômicas e sociais; pluralidade e diversidade cultural; conhecimento científico e tecnológico, dentre outros, são atributos locais que podem mobilizados para a construção de um projeto de sociedade portador de futuro.
Futuro que depende de ações políticas de governantes para muito além de responder a pressões das forças dominantes do momento. E a história demonstra que isso é uma possibilidade que traz resultados.