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Bloco de poder

Fundo do poço no Brasil não tem mais amortecedor: é hora de convergência

Sem convergência, o próximo presidente do Brasil corre o risco de não ter a sua vitória reconhecida e de não tomar posse. Se tomar posse, corre o risco de não governar. Essa espada de dâmocles paira sobre as candidaturas presidenciais

Públicado em 

11 dez 2021 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Palácio do Planalto, sede do Executivo federal em Brasília
Palácio do Planalto, sede do Executivo federal em Brasília Crédito: Eduardo Coutinho
Aos poucos, a convergência política nacional se torna um imperativo de realidade. A última pesquisa da Quaest Consultoria mostra que para 41% dos entrevistados a grande preocupação é a economia. Além desses, outros 14% dizem que o grande tema de preocupação é a questão social, diretamente ligada com a piora na economia. Portanto, 55% focalizam a economia. Para 70%, a situação econômica piorou. A socioeconomia é o tema central para 2022.
E daí? Daí que, ao mesmo tempo, as candidaturas presidenciais estão assumindo mais nitidez no tabuleiro político. E que, de pronto, elas percebem o tamanho do desafio. Entendendo que sem convergência política será impossível enfrentar o desafio histórico e trilhar o caminho estrutural da restauração do Estado no Brasil. Mais do que falar em crescimento que vai e volta, é necessário buscar condições mais amplas para o desenvolvimento sustentável. É o que coloca a convergência como imperativo de realidade.
Na undécima hora, sob pressão de crises, cresce a força de um pensamento mediano implícito nos resultados das pesquisas e nas manifestações das lideranças da sociedade civil: o fundo do poço não tem mais amortecedor e chegou a hora de enfrentar as dores políticas e sociais de um processo de restauração do Estado. Trocando em miúdos, significa enfrentar o problema do conflito distributivo e do pacto de poder.
Sem convergência, o próximo presidente do Brasil corre o risco de não ter a sua vitória reconhecida e de não tomar posse. Se tomar posse, corre o risco de não governar. Essa espada de dâmocles paira sobre as candidaturas presidenciais. É um beco sem saída que induz iniciativas de convergência. Para a sobrevivência política e a contenção da regressão. Nossos economistas, por exemplo, já começam a contornar a antiga dicotomia entre monetaristas e desenvolvimentistas e o estéril debate Estado máximo “versus” Estado mínimo.
Armínio Fraga mostrou que seria possível ajustar o país em oito anos, com as reformas tributária, administrativa e de orçamento da União, desde que haja estabilidade política – ou seja, convergência. Cresce a possibilidade de consenso em torno de três pontos cruciais: reestruturar os gastos públicos com foco em investimentos transversais; estimular a economia para a criação de valor voltado para os novos mercados da economia verde e para o capitalismo de “stakeholders”; e promover a reforma do Estado.
Só que o consenso entre os formadores de opinião é necessário, mas não suficiente. É preciso uma convergência mais ampla. Refiro-me à vontade política das candidaturas presidenciais para articular nova coalizão politicamente dominante – isto é, novo pacto de poder que busque a restauração do Estado e a reformulação do contrato social.
Por isso, as candidaturas precisam conquistar capacidade convocatória e capital social, capital político e capital simbólico. Para dialogar com as forças sociais, políticas e empresariais que poderão configurar um novo Bloco de Poder. É esse o nome do jogo: novo Bloco de Poder.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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