Andei conversando com empresários dos setores primário, secundário e terciário da economia brasileira. Todos de grande porte e com abrangência nacional e internacional. Colhi observações e opiniões.
No geral, captei traços de simpatia pelo liberalismo social de José Guilherme Merquior, e não apenas pelo liberalismo econômico. Há uma preocupação com a qualidade da trajetória para o futuro do país. E uma constatação de que os brasileiros perderam a esperança.
A diáspora brasileira é o indicador. Desde 2013, ela aumentou. São 4,5 milhões de brasileiros que vivem em outros países. E aí a preocupação crucial é com a juventude sem esperança. Trilhando os caminhos do êxodo, ou da regressão. E caindo nos braços da criminalidade.
É moderna a visão de muitos sobre o Estado. Passam ao largo da dicotomia “estado maior/ estado menor”. Defendem um Estado eficaz: o que entrega boas políticas públicas e estimula a produtividade e a prosperidade. Isso significa recuperar a dimensão PÚBLICA do Estado. A (Res)Pública, no sentido literal: do povo.
Para eles, o que é público não é necessariamente estatal. Assim, criticam a estatização e a burocratização das máquinas de governo nos três níveis da federação. Citam exemplos de duplicação de funções entre os três níveis de governo (por exemplo, na questão do meio ambiente), causando desperdício de recursos e paralisia decisória.
Enumeram dados. Os três níveis de governo representariam gastos de 45% do PIB. E o déficit nominal do país está chegando a R$ 1,0 trilhão. Um deles comentou: “R$ 700 bilhões de juros da dívida vão para a Faria Lima”.
O problema, para eles, é que as máquinas burocráticas andam sozinhas e retroalimentam uma espécie de círculo vicioso que mantém uma pressão permanente para mais gastos. Vem daí a questão da qualidade dos gastos, que inclui a reestruturação e o corte de gastos, abrindo espaço para o aumento dos investimentos. E a modernização das estruturas arcaicas das máquinas públicas nos Três Poderes da República.
A maioria acredita que o Brasil pode crescer muito mais. Pensa que o patrimonialismo é a semente permanente do atraso e da desigualdade. Defende que o país precisa de um novo projeto de desenvolvimento que possa voltar a despertar o “espírito animal” do empresariado para a realização de novos investimentos. Mas é preciso, para eles, calibrar as expectativas econômicas e políticas e a segurança jurídica.
Alguns citam a Índia como exemplo a ser seguido de “liberdade para crescer”. Mostram que o México está crescendo. Recordam a experiência chinesa de crescimento. Para eles, esses são exemplos, entre outros, de como “liderar uma revolução pela distribuição de riqueza”.
Quase todos elogiam a postura e ação do ministro Haddad. Mas questionam o que consideram uma hipertributação – a tributação de investimentos. Com azedume: “Mentalidade confiscatória”.
Questionaram, também, o anúncio antecipado da mudança da meta fiscal para 2025. Uma espécie de “sincericídio” do ministro Haddad que atingiu as expectativas econômicas.
Tudo somado, o empresariado mostra disposição para mais diálogo com o governo Lula 3. Passam a impressão que esse diálogo não flui regularmente. Acham que a melhoria do diálogo poderia ser positiva para o Brasil. Pontuam “problemas de coordenação” no governo. A resultante é certa fragilidade na mediação política – afirmam.
À guisa de inferência, parece existir em segmentos do empresariado desses setores produtivos algumas sementes para a progressão, no país, de uma opção pelo liberalismo social e democrático, nos moldes semelhantes ao defendido por José Guilherme Merquior. A conferir.
(Como se sabe, Merquior via como importante uma ação estatal na promoção de oportunidades. Para a expansão de uma “liberdade efetiva”, aquela que contém inclusão social. Ou seja, o Estado promovedor, ao lado do mercado, da liberdade efetiva, em um país marcado pela desigualdade).