O nosso Chico capixaba descansou. O nordeste chama o Rio São Francisco do “nosso Chico”. O Brasil considera o Chico Buarque o “nosso Chico”. Nós, capixabas, consideramos Chico Lessa o “nosso Chico”. Ele descansou terça-feira, dia 30 de abril.
Uma “lenda da música capixaba”, de acordo com belos obituários feitos por A Gazeta e A Tribuna. Os principais meios impressos de comunicação da época dele. Mas, é claro, os novos sites importantes e as redes sociais também repercutiram e registraram.
Chico Lessa era um garoto da Praia Comprida e da Praia de Santa Helena, em Vitória. Hoje, chamamos tudo de Praia do Canto. Era um garoto que como eu e muitos outros amigos amava os Beatles e os Rolling Stones – (parodiando a versão brasileira do grupo Engenheiros do Hawaii da música composta pelos italianos Franco Migliacci e Mauro Lusini).
Na época, ele morava em frente do Praia Tênis Clube, na Av. Desembargador Santos Neves. Os garotos e garotas circulavam a pé pelas ruas sem violência nos bairros Praia Comprida, Santa Helena e do Canto. E iam muito à Praia do Barracão.
Muito cedo, “casou com o violão e a guitarra”. Virou um músico dedicado e talentoso. Não me lembro do Chico sem falar de música e letra, ou sem tocar. Além de grande compositor, "Chico era um piadista iconoclasta e irreverente", lembrou seu velho amigo José Renato. Quando esteve em Piúma por um tempo, Chico dizia aos amigos: “bicho, Piúma é uma”.
No Rio, também convivi com ele na época dos Festivais da Canção, nos anos 1968/1970. Fiz vestibular no Rio e estudei na UFRJ, na Urca. Chico, sempre com uma melodia & letra de música na cabeça e um violão na mão, “pintava” (gíria da época) na minha quitinete na Rua Santa Clara, em Copacabana. Um dia ele falou de “Meio Mastro”, seu sucesso com Tina Tironi. Cantarolou lá.
Chico escolheu ficar no Espírito Santo. Na época dos Festivais da Canção, Beth Carvalho insistiu para ele ficar no Rio. Em Minas Gerais, era considerado membro do Clube da Esquina, o grupo de músicos que incluía Milton Nascimento.
No ano passado foram comemorados os 80 anos do Milton Nascimento. Já em janeiro, Chico me ligou e cravou: “Meu novo CD revive letras e músicas que criei com meus amigos do Clube da Esquina!”. Estava feliz.
Já que mencionei os Beatles e os Rolling Stones, é preciso também lembrar do Les Enfants. Um conjunto organizado junto com os amigos Tina Tironi, Evandro, Fernando e José Humberto (vocalista apelidado como Ringo).
Resolveram ir para o Rio. Coragem. Moravam no Bairro Peixoto, em Copacabana. Com dinheiro curto. Resolveram cantar na marquise da loja americana Sears, no local onde hoje fica o Botafogo Praia Shopping. Mas continuaram duros, com pouca grana.
Irreverente, Chico contava que teve lá um dia que acordou mais cedo do que os colegas do Les Enfants, pegou o leite deixado na porta pelo leiteiro e tomou mais da metade. E disse depois para os amigos, quando eles acordaram: “A farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Compraram outro litro.
Na quarta-feira, dia 1º de maio, os capixabas deram “adeus à lenda da música capixaba”. No adeus, vale recordar a letra de “Meio Mastro”:
“Hoje lá no morro a escola desceu sem você
Não há mais no repique do samba a cadência inspirada ao vê-la
Eu sei é carnaval mas lá em cima a tristeza não vê
Que a gente morre um ano esperando nascer
Três dias de alegria que não chegaram por causa de você
Na avenida bandeira meio mastro desceu
Samba hoje a saudade no lugar que foi seu
Se quem canta soubesse o que foi te perder
Ficaria em silêncio a chorar por causa de você”.