Na política nacional, já são nítidos os sinais de esvaziamento do discurso da negação da política. Ainda que apenas no plano das elites políticas, a viagem de volta ao leito da Política, no locus simbólico da pólis grega, já começou. Deixou de ser “velha política” para ser simplesmente Política. A narrativa de 2018 perdeu impulso. Mas o caminho de volta tem barreiras. No Brasil, também, a sociedade não confia mais nos governos, nos políticos e na política.
Eis o enigma a ser decifrado ao longo da sucessão de 2022. Como é que as candidaturas presidenciais – e também as candidaturas para as governadorias nos Estados – vão conseguir “conversar com a sociedade”, despertar a esperança, diminuir o medo do futuro e engajar o grande absenteísmo político-eleitoral? Em 2018, a alienação eleitoral (brancos, nulos e abstenções) nas eleições presidenciais chegou a 30,87%. E nas eleições para as governadorias chegou à média de 32,44%. Fortes sinais de desconfiança nos governos, nos políticos e na política.
Esse absenteísmo contribuiu para a ida do pêndulo político para o populismo de extrema direita e ajudou a eleger Jair Bolsonaro com a bandeira da antipolítica e da corrupção. Mas agora a demanda central do eleitorado é a socioeconomia. Para conseguir conversar melhor com a sociedade, as candidaturas vão precisar convergir para o centro e centro-esquerda do espectro político. O pêndulo vai nesta direção. Quem vai, e como vai, fazer este movimento e atrair a atenção dos eleitores?
O tabuleiro político está em movimento. Estamos na fase de agregação de forças e alianças. Convém prestar atenção no protagonismo de Gilberto Kassab (PSD). Ele percebeu bem a tendência política pendular para o centro e centro-esquerda, bem como a necessidade de “agregação dos contrários”. Não será candidato a nada e, como presidente do PSD, vai atuar para eleger 55 deputados federais e costurar alianças político-eleitorais para 2022.
Se tiver sucesso, vai fazer parte da construção da governabilidade em 2023. Convém, também, prestar atenção em Geraldo Alckmin, que saiu do PSDB e faz parte da mesma movimentação pendular. Sem um mínimo de “convergência dos contrários”- como agora na Alemanha -, será difícil governar o Brasil em 2023.
Convém perguntar como é que as candidaturas vão conseguir dialogar com a sociedade. Como engajar o absenteísmo e diminuir a alienação eleitoral? Como conseguir, por exemplo, conversar com o eleitorado mais jovem (16 a 24 anos), que representa aproximadamente 15% do total de eleitores e que conviveu mais com a antipolítica, a partir de 2013?
Adam Przeworski mostra que as democracias não têm conseguido melhorar a vida das pessoas. Isso deixa parte do eleitorado vulnerável às “soluções mágicas” de populistas. Ao mesmo tempo, mudanças nas sociedades e no modo de vida das pessoas levam ao medo do futuro. O engajamento do absenteísmo passa pela capacidade convocatória de candidaturas com empatia e experiência. Vem daí a volta para a Política. A solução passa pela Política.