Especialistas em análise de impacto de imagem na opinião pública se contorcem para avaliar o tamanho do estrago – para Bolsonaro, para o governo e para o país –, provocado pelo vídeo calamitoso postado pelo presidente tuiteiro. A repercussão negativa, de dimensão mundial, envergonha pessoas sensatas.
Há o temor de que a corrosão do respeito pela imagem do presidente complique mais do que já está a negociação do Executivo com o Congresso para aprovar a reforma da Previdência, carro-chefe do governo.
Pouco antes do desastroso vídeo, muitos vaticinavam no Congresso que em 70 dias a reforma da Previdência poderia ser discutida e votada nas duas Casas. O cálculo pressupunha o atendimento de interesses clientelistas encaixados em mudanças na proposta original. Seria uma demora excessiva, de efeito nocivo para o país. Um semestre perdido.
ora, o problema pode não ser apenas o tempo de tramitação. Teme-se que o efeito da atitude impulsiva do presidente incentive os parlamentares a aumentar as exigências para aprovar a matéria. Esse tipo de receio se justifica por fatos antecedentes. A tradição mostra que quanto mais desgastado é o presidente, mais os lobbies se agigantam. Mais alto é o preço para apoiar propostas espinhosas. E a reforma da Previdência é mais difícil.
Outras matérias importantes podem ser afetadas, dentre elas o pacote de segurança pública, assinado por Moro. Também pode crescer a resistência da velha política à redução do número de ministérios. Isso é um teste para Bolsonaro. A medida provisória que trata do assunto já recebeu uma quantidade absurda de emendas: 539.
A inconsequência do presidente surge em péssimo momento para a economia. O Brasil vive a mais frustrante recuperação pós recessão. Acumula dois anos de pibinhos de 1,1%, enquanto 12,7 milhões de pessoas zanzam sem emprego.
O investimento está reprimido em patamar muito baixo. Cálculo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) indica que para o Brasil voltar ao mesmo nível do primeiro trimestre de 2014, antes da recessão, os investimentos terão de crescer 36% acima do realizado no quarto trimestre de 2018. Isso reafirma a necessidade e a urgência de aprovação da reforma da Previdência, sem que as emendas sufoquem a eficácia fiscal. Se não for assim, o governo começa a definhar.