Entra ano, sai ano, cuidar da gente mesmo continua a ser um poderoso começo.
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Pouca coisa supera o poder do básico bem feito todos os dias.
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Aliás, consistência, convicção e coerência operam verdadeiros milagres.
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O tempo dos bichos segue uma lógica bastante distante das medidas que a gente costuma obedecer. Um relógio regido pela sabedoria da natureza - cheiro, território, associação positiva, feromônios, regularidade - a nos lembrar de acalmar as expectativas, aceitar as diferenças, respeitar o andamento alheio e respirar, apesar do que pesa.
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Definitivamente, quem vê close não vê corre.
[Onde doem as dores que você não conta para ninguém?]
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Remédios em excesso remediam pouco.
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Certas coisas não mudam. A saída ainda é para dentro, calma segue sendo potência, saber o que te paralisa continua tão importante quanto saber o que te move.
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Apesar da violência do mundo de fora e da dureza imposta pelo racismo, é preciso guardar e fortalecer os afetos isolados entre músculos, órgãos e veias, no avesso da pele.
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Estantes e livros são vastos como o mundo de Drummond - Raimundo, gauche, o bonde, o homem que quase não conversa, rima, solução, deus, conhaque, a lua, o coração vasto como o mundo, aquele poema todo, que bota a gente comovido como o diabo.
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Drummond, aliás, sabia das coisas: “Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. Sem uso, ela nos espia do aparador”.
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Diferentes olhos veem diferentes coisas. Perspectiva é poesia.
AmizadeCrédito: Pixabay
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Por incrível que pareça, tem gente que gosta de prejudicar os outros apenas porque sim.
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Inclusive, o aprendizado do ano anterior segue firme e cada vez mais forte por aqui: não adianta se dizer feminista na rede social e sacanear outras mulheres pelas costas, se dizer justiceiro de grandes causas e ser injusto nos pequenos julgamentos, falar de Deus em sua infinita bondade e semear a discórdia assim que a missa termina.
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Um bocado de água passou, passa e passará embaixo da ponte e agora dizem que, a certa altura dos acontecimentos, as mudanças climáticas farão uma a cada quatro delas desabar até 2050.
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A gente sempre sabe pelo que não quer passar outra vez.
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Se tudo é prioridade nada é prioridade.
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Que privilégio é ver a história ser feita diante dos nossos olhos - não a história grandona, como o fim de uma guerra ou a queda de um ditador, um golpe de Estado ou uma vitória maiúscula da democracia, mas os momentos pequenos que, um dia, estarão nas crônicas e poemas, na mesa de bar, num gole sozinho de vinho, nas memórias que contam os que chegaram antes de nós.
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A mulher que caminha — a flâneuse - é como o flâneur de Benjamin e Baudelaire, mas diferente. Enquanto ele, quando vaga entre ruas e vielas, carrega o direito inquestionável de ir e vir sossegado, mulheres são expostas ao julgamento e à insegurança. Nós batalhamos por cada centímetro de rua, calçada e faixa de pedestres. A nós é negado o privilégio de sermos invisíveis.
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Descolonizar (ou contracolonizar) o pensamento significa termos certa desconfiança em relação àquilo que nos ensinaram que era justo e correto.
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São as coisas miúdas que definem o que somos até quando a gente não faz ideia da jornada ou da chegada, mas sabe que precisa caminhar. Elas ajudam a seguir, mesmo em dias difíceis - comida do gato, canção na vitrola, lixo no lugar certo, expediente cumprido, um abraço que energiza, um passo depois do outro, dentro do possível, à espera de dias melhores.
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É como diz a canção: pra consertar o mundo, vamos começar lavando os pratos.
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Uma lista de aprendizados continua sendo um bom modo de fechar o ano.
Ana Laura Nahas
É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura