Desde 2014, colecionamos tantos 7 a 1 muito além do futebol que não surpreende que paire certo abatimento para a Copa do Mundo que começa hoje na Rússia. Não bastassem todos os problemas políticos, econômicos e sociais que se aprofundaram no período, ainda pagamos a fatura do Mundial passado. Afinal, alguém vê algum legado da Copa por aí? Afora a corrupção e a decorrente prisão de um ex-governador do Rio, não há nada. As contrapartidas ficaram nos sonhos.
Contudo, a escolha por torcer ou não pela Seleção não precisa ser mais uma questão a aguçar a divisão da nação. É decisão de cada um. E é bom ressaltar que não há contradição alguma: é perfeitamente possível, sim, torcer pelo Brasil (em campo) e ainda assim torcer pelo Brasil (o país). Entrar no clima da Copa do Mundo não necessariamente transforma o brasileiro em um alienado, alheio aos cada vez mais sérios problemas do país. Muita água passou desde a última edição: os antagonismos políticos estão cada vez mais acirrados. Não precisamos de mais um dilema ou de mais razões para mais bate-boca.
É quase uma questão de saúde mental, de alívio momentâneo para as nossas mazelas. Não há crise que impeça que o povo celebre o esporte mais popular do mundo. Dá para equilibrar o senso crítico – inclusive às próprias entranhas da Fifa – e se divertir com o esporte. Já temos tantos problemas, as pessoas andam tão abaladas, que uma válvula de escape é saudável. Num ano tão complexo como 2018, é uma necessidade. E saber distinguir as coisas é um sinal de amadurecimento.
Não é de hoje que a Copa do Mundo é um símbolo do escapismo. A fase de mais intransigência e violência da ditadura militar, após o decreto do AI–5 no final de 1968, teve um Mundial no caminho. Vencido pelo Brasil, todos sabem. Em 1970, o “pão e circo” já acirrava os ânimos. Em 2018, fica mais evidente a importância de colocar a liberdade de cada um em primeiro plano. Copa do Mundo não é e nunca foi a salvação do país. Mas tampouco é o nosso maior problema.