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Paulo Bonates

Chico Anysio é a representação da arte em si

Uma tarde, subi a escada lateral da emissora e dei de cara com quem? Francisco Anysio, em carne e osso

Publicado em 10 de Setembro de 2018 às 20:47

Públicado em 

10 set 2018 às 20:47
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Chico Anysio, humorista Crédito: Divulgação
Conheci Chico Anysio pelas mãos da minha avó, a veneranda Waldebrandina Normando da Fonseca, Dona Branda. Toda sexta-feira ela me motivava a interromper o programa da garotada – depositar vidro nos trilhos do bonde para fazer cerol, a arma letal da pipa – e assistir na televisão antiga, daquelas que choviscava dentro, o programa “Noites Cariocas”.
Vovó morava na bucólica Vila Hortência, número 80 da Rua Baldraco, no Meyer, em uma casa que o que tinha de velha tinha de gostosa, inclusive goiabeira e quintal.
“Você vai conhecer um humorista que se transforma em todo o humor do mundo, e as personagens têm alma.”
As televisões e televizinhas eram o programa. Tão ruim a imagem, que quando assistíamos jogos de futebol, montávamos uma equipe para identificar os jogadores, criando certas táticas. Por exemplo, se um vulto fazia uma jogada genial era o Pelé; se fazia besteira, era o Fio, do Flamengo.
Vó Brandina e eu grudávamos no Chico Anysio através de Bento Carneiro, o Vampiro Brasileiro, o Jovem, o Coalhada, o Bahiano e os Novos Caetanos, o Professor Raimundo, da Escolinha, Alberto Roberto, Tavares, Azambuja, o Painho, que popularizou a pentasexualidade, Justo Veríssimo, Haroldo, o hétero, Popó, Bozó, Nazareno, Roberval Taylor, Tim Tones, o Silva, Pantaleão, Gastão, Salomé de Passo Fundo...
Era pouco, decerto, mas o suficiente para encher de emoção o que antes era só perplexidade. Havia encontrado cara a cara com uma devoção
A TV Rio ficava na Avenida Atlântica, em Copacabana. Moramos um tempo ali pertinho, na Julio de Castilho. Uma tarde, subi clandestinamente a escada lateral da emissora e dei de cara com quem? Isso mesmo: Francisco Anysio, em carne e osso. Parei, como se avistasse um deus, dispondo. Passou rapidinho em direção aos camarins e falou: “Oi garoto!”.
Era pouco, decerto, mas o suficiente para encher de emoção o que antes era só perplexidade. Havia encontrado cara a cara com uma devoção.
Acompanhei o “Noites Cariocas” até o derradeiro suspiro do programa. Emendei meu fã-clube solo com “Chico Anysio Show”. Logo a torcida iria aumentar, já éramos dois. Meu eterno amigo e colega da medicina Lauro Sergio incorporou-se. Gastávamos os últimos cruzeiros para ver o show do astro lá no Teatro da Lagoa. Chico foi o segundo stand-up no gênero. (Quem criou a modalidade foi o Zé Vasconcellos).
Reconheço, por exemplo, o talento de Jô Soares, principalmente quando ele deixa o entrevistado falar, mas o Chico Anysio é o maior, é o maior, é o maior.
Como se não bastasse, a alma gentil deu lugar a dezenas de ex-humoristas idosos jogados em asilo, esperando morrer. Pelo menos dois de seus milhares de filhos mostram na TV o mesmo DNA.
Mas o salário oh!

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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