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Tarcísio Bahia

Centro de Vitória reúne prestígio histórico e decadência econômica

Sempre se aponta a vocação turística e cultural como alternativa econômica. O que seria bom se a população gozasse de tempo e orçamento para gastos com lazer

Publicado em 04 de Julho de 2018 às 14:07

Públicado em 

04 jul 2018 às 14:07
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

Vida noturna no Centro de Vitória, na região da Rua Sete Crédito: Fernando Madeira
Uma das mais antigas cidades do Brasil, Vitória possui no Centro a expressão de sua história ao longo dos séculos, que vai desde a Capela de Santa Luzia, construção do século XVI, tombada pelo Iphan, passando por obras ecléticas, como a neogótica Catedral Metropolitana, a moderna Rodoviária do arquiteto Carlos Fayet, até chegar em obras contemporâneas como o Tancredão, centro esportivo cujo projeto arquitetônico foi escolhido em concurso organizado pelo IAB/ES.
Tendo vivido seu auge até a década de 1960, quando as cidades ainda se caracterizavam por serem monocentrais, o Centro assistiu incólume à expansão urbana da cidade e à chegada do modelo policentral, quando polos comerciais e instituições públicas se espalharam ao longo do território urbano; a consequência foi um contínuo processo de esvaziamento. Como ponto de partida desta “decadência” se considera o Novo Arrabalde, plano urbanístico do engenheiro sanitarista Saturnino de Brito que propunha um novo vetor de crescimento projetado para Vitória, onde atualmente é a região da Praia do Canto.
De lá pra cá, famílias, empresas e instituições foram pouco a pouco saindo do Centro, de tal modo que hoje são muitos os imóveis vazios na região, muitos deles com excelente padrão construtivo e até mesmo preço baixo para compra ou locação. Uma das questões que contribuem para tal paradoxo são as vagas de estacionamento, pois são edificações de uma época na qual o automóvel ainda não gozava do prestígio alcançado nas décadas seguintes.
Recentemente o Sebrae inaugurou sua nova sede na Enseada do Suá, contribuindo assim para o esvaziamento do Centro. E em breve serão a Receita Federal e o Ministério Público Federal, além do Fórum e parte do Judiciário que também pretendem fazer o mesmo movimento. Há também casos como a Alfândega, já que o número de funcionários diminuiu e encontra-se com pouca atividade após o fim do Fundap.
Em contrapartida, temos os equipamentos culturais, turísticos e de lazer, tais como o Sesc Glória, o Theatro Carlos Gomes e o recém-inaugurado Palácio Sônia Cabral. A eles, se juntará logo a Fafi, uma vez que suas obras de restauração se encontram em fase final. Há ainda que se considerar o agito noturno dos bares e restaurantes das ruas Sete de Setembro e Gama Rosa, movimento que se soma aos saraus e lançamentos literários promovidos pela Editora Cousa e exposições no Palácio Anchieta e no Arquivo Público.
Sempre se aponta a vocação turística e cultural do Centro como alternativa econômica para seu esvaziamento. Isso seria muito bom se a população gozasse de mais tempo livre e orçamento para gastos com lazer, ou até mesmo interesse pela cultura histórica, o que, como se sabe, não é verdade.
A atividade comercial, de caráter mais popular, ainda vem mantendo certo nível de dinamismo na região, mas é importante ter em mente que cada vez mais o comércio presencial vem perdendo espaço para as compras on-line. E a tudo isso se soma o problema da violência urbana, que fez uma loja de departamentos de uma rede nacional ser arrombada diversas vezes em pouco tempo; não será surpresa se ela vier a fechar em breve, e assim eliminando empregos na região.
Trata-se de um quadro geral não muito diferente de outras cidades brasileiras, nas quais suas áreas centrais apresentam tal dicotomia entre prestígio histórico e decadência econômica. Será necessário um esforço institucional coletivo se quisermos preservar parte da memória urbana do Centro, tornando-o economicamente sustentável.

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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