Escolhendo a distribuição de riquezas como desafio maior a ser enfrentado no Espírito Santo, o governador Renato Casagrande (PSB) reafirmou a importância do investimento público e do Estado como catalisador do desenvolvimento social. Por outro lado, relativizou o papel da iniciativa privada e dos investimentos privados no desenvolvimento econômico e social do Espírito Santo.
As declarações foram dadas em sua palestra durante o 14º Encontro de Lideranças, em Pedra Azul.
Falando a empresários com negócios no Espírito Santo, Casagrande apresentou o seu governo como uma administração que não vira as costas nem torce o nariz para o capital privado nos serviços públicos, antes o recebe com boas-vindas; ao mesmo tempo, porém, um governo que não abre mão de fazer investimentos públicos com recursos próprios (aqueles arrecadados pelo Estado dos contribuintes).
“Nós que estamos na política temos que avançar nas parcerias com o setor privado, mas os governos não podem abrir mão de investimentos próprios.”
Ele exemplificou com o caso da duplicação da BR 262, que o governo federal já procurou leiloar, mas não atraiu grandes interessados. “É preciso ter um investimento público primeiro na BR 262, para poder atrair o investimento privado. O investimento privado ajuda muito, mas não resolve tudo.”
Casagrande também defendeu a desburocratização da máquina e a extinção de cobranças desnecessárias que só asfixiam os empreendedores – música para os ouvidos dos presentes –, citando como exemplo o seu projeto de lei recém-enviado à Assembleia Legislativa que extingue multas até então cobradas pelo governo estadual de empresários pelo não cumprimento de “obrigações acessórias”. Ou seja, menos taxas.
“Temos que fazer um trabalho de desburocratização da máquina. Não podemos ficar cobrando altas multas do empresário se ele não causou nenhum prejuízo ao Estado e se não agiu com má-fé. A multa tem que ter um caráter pedagógico.”
Ao mesmo tempo, Casagrande defendeu a construção de um “Estado mais justo” e “menos desigual”.
"O grande desafio é fazer um Estado mais justo. O nosso Estado é muito desigual. Concentramos muita renda. Há poucos dias saiu pesquisa do IBGE mostrando que o Brasil avançou na concentração de renda. Acho até que foi natural porque, na hora da crise, as pessoas que têm menos perdem mais."
Nesse ponto, o governador apresentou o traço mais claramente “de esquerda” do seu governo, ou seja, aquilo que efetivamente o posiciona nesse campo de centro-esquerda em que ele se reconhece, muito mais do que no de centro-direita: desenvolvimento econômico, sim, mas com distribuição de renda.
Ou, dito de outra forma: o crescimento econômico não pode ser um fim em si mesmo. Só é bom para a sociedade se vier acompanhado de melhoria de vida para todos, em todas as classes, e se reduzir desigualdades, em vez de as aprofundar.
Pode parecer um detalhe menor, desimportante, mas é exatamente o que distancia Casagrande de um liberalismo econômico de direita com o qual seu governo chega a flertar em algumas medidas. Basta lembrar que, para alguns liberais, a desigualdade social nem sequer é considerada um problema, enquanto Casagrande a considera um problema grave.
Assim, o governador sublinhou a distribuição de riqueza como um desafio central não só de seu governo mas que deveria ser abraçado por todos. “O tema da desigualdade é um tema nosso que nós temos que enfrentar.”
REFORMAS, EDUCAÇÃO E SAÚDE
Na sua visão, a mitigação da desigualdade socioeconômica entre os brasileiros passa, em primeiro lugar, pela reforma tributária (nosso sistema é regressivo, com tributação concentrada no consumo, o que penaliza contribuintes de baixa renda).
Para o governador, contudo, a reforma tributária será mais difícil de se aprovar no Congresso do que a previdenciária. “Mas temos essa oportunidade agora no Congresso Nacional. Temos um ambiente propício para aprová-la. Se não podemos fazer o ideal, vamos fazer o possível.”
Em segundo lugar, a distribuição de riquezas, afirma ele, passa pelas políticas públicas direcionadas a todos os cidadãos, sobretudo na educação e na saúde. Sem falar em “Escola Viva”, ele citou as 32 escolas em ensino integral que seu governo criará até o fim de 2020.
E, admitindo que alguns dos empresários presentes são contrários à medida, frisou que seu governo modificou a estrutura do SUS, com a criação de uma fundação para gerir hospitais estaduais e de um instituto de ensino para médicos que queiram se especializar em Medicina de Família e Comunidade para atender os cidadãos na ponta (saúde primária), por inspiração do atual secretário estadual de Saúde, Nésio Fernandes (PCdoB), ele mesmo um especialista nessa área.