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Vitor Vogas

Casagrande e Bolsonaro: direções completamente diferentes

Principais secretários de Casagrande (Saúde, Segurança, Educação, Justiça, Direitos Humanos, entre outros) discordam de algumas das principais propostas de campanha de presidente eleito

Publicado em 21 de Dezembro de 2018 às 23:45

Públicado em 

21 dez 2018 às 23:45
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Praça Oito - 22/12/2018 Crédito: Amarildo
Renato Casagrande (PSB) não faz oposição a Jair Bolsonaro (PSL), nem pretende que seu governo no Espírito Santo fique isolado do próximo governo federal. Por prudência, já eleito em primeiro turno, o capixaba manteve-se neutro durante o segundo turno presidencial, muito embora o seu partido tenha sido um dos primeiros a anunciar apoio a Fernando Haddad (PT).
Em reunião dos governadores eleitos em Brasília, Casagrande já conheceu Bolsonaro e até tirou foto, sorridente, ao lado do capitão. Arrogando-se sempre uma grande “capacidade de diálogo”, o governador eleito sabe que precisará manter boa ponte com Brasília para obter recursos federais nos próximos anos.
Dito isso, é preciso constatar: as diferenças entre o governo Casagrande, no ES, e o governo Bolsonaro, no Brasil, são profundas e saltam aos olhos, em termos de convicções e concepções de políticas públicas para todas as principais áreas, inclusive saúde, segurança e educação.
Pode até não haver antagonismo, mas é evidente que os dois governantes caminham em direções opostas ou, no mínimo, muito diferentes. E essas profundas diferenças se refletem na composição das respectivas equipes. O que pensam e dizem alguns dos principais secretários escolhidos por Casagrande vai na contramão de algumas das mais caras propostas de campanha do presidente eleito.
O notável distanciamento foi coroado ontem, com o anúncio do próximo secretário de Saúde, o médico Nésio Fernandes. Ele até teceu elogios à equipe formada por Bolsonaro no Ministério da Saúde. Mas o simbolismo é forte: além de ser filiado ao PCdoB, Nésio formou-se em Medicina em Cuba, revalidou seu diploma pela UFMG e foi sempre um defensor do modelo de parceria com médicos cubanos no programa Mais Médicos.
Ironicamente, o anúncio é feito menos de dois meses após a decisão do governo cubano de mandar de volta para casa os cerca de 8 mil médicos do país que trabalhavam na atenção primária, espalhados pelo território brasileiro. Evitando entrar em polêmica, o próprio Nésio frisou que essa foi uma decisão que partiu do governo de Cuba. Este, contudo, alegou tê-la tomado por causa do histórico de declarações de Bolsonaro hostis à presença dos médicos cubanos no Brasil.
Casagrande não é louco de bater de frente com o governo Bolsonaro antes mesmo de assumir. Mas está colocando em prática as suas próprias convicções. E estas não têm nada a ver com as do presidente eleito. Gestos, escolhas e perfil da equipe falam por si.
Confira, abaixo, algumas das principais discordâncias em algumas das principais áreas de governo e algumas das principais propostas de Bolsonaro.
DIREITOS HUMANOS E MENORES INFRATORES
Na mesma página do plano de governo de Bolsonaro, também lê-se: “Reduzir a maioridade penal para 16 anos!” O presidente eleito já falou em reduzi-la para 17 anos.
Como secretária de Direitos Humanos de Casagrande, a advogada Nara Borgo será responsável o Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (Iases). Ela é veementemente contrária qualquer mudança nesse trecho da Constituição.
“Não é reduzindo a maioridade penal que a gente vai resolver o problema de atos infracionais praticados por crianças e adolescentes”, afirma a futura secretária. Ela defende a aplicação de medidas em meio aberto, a semiliberdade e a liberdade assistida.
AGRICULTURA
Como deputado reeleito, Foletto (PSB) manifesta entusiasmo com a formação do governo Bolsonaro. Como futuro secretário estadual de Agricultura, seu discurso destoa do mantido pela próxima ministra de Agricultura, Tereza Cristina (DEM, ex-PSB).
Ao ser anunciado, Foletto falou em combater agrotóxicos. Já Tereza ganhou o apelido de “Musa do Veneno” pela intensa atuação em defesa do PL 6299/02, que flexibiliza regras de utilização de agrotóxicos no país.
EDUCAÇÃO
Bolsonaro e seus filhos políticos são defensores do projeto Escola sem Partido, que limita a discussão e a difusão do conhecimento em sala de aula (algo materializado na escolha do seu ministro de Educação, o colombiano Vélez Rodríguez). Após eleito, Bolsonaro já deu declaração estimulando a filmagem de professores por alunos em sala de aula. Assim como os defensores do projeto, o presidente eleito condena o pensamento crítico em si. Em Vitória, no fim de julho, afirmou que “no mercado, ninguém quer saber quem tem senso crítico”.
O secretário de Educação de Casagrande, Victor de Angelo, discorda. Entende que o “Escola sem Partido” é inconstitucional, por ferir de morte a liberdade de aprender e ensinar, além de pretender estabelecer um modelo ultrapassado de uma escola “acrítica”, “que não está em dia com o nosso tempo”.
“Precisamos ser fiadores de um ambiente escolar em que professores e alunos tenham liberdade para ensinar e aprender. Porque, do contrário, cairemos em uma escola que ninguém se interessa por ela: uma escola acrítica. Essa escola certamente não capacitará os alunos tanto para serem cidadãos como para serem trabalhadores, a terem tanto capacidade técnica quanto o conhecimento voltado para a cidadania. (…) Hoje em dia, o conteúdo é de muito mais fácil acesso e fica defasado muito mais rapidamente. Então uma escola que se dedica apenas a isso ou prioritariamente a isso é uma escola que já nasce morta. Já uma escola que dá o instrumental para que esse aluno seja esse cidadão crítico e esse profissional capacitado, essa sim é a escola que nos interessa, que é a escola alinhada com o nosso tempo.”
SEGURANÇA PÚBLICA
Uma das principais propostas de campanha de Jair Bolsonaro foi a revogação do Estatuto do Desarmamento e a facilitação da posse de armas para civis.
No dia 13 de novembro, o delegado federal Roberto Sá foi anunciado por Casagrande para o comando da Secretaria de Segurança Pública. Entre o fim de 2016 e fevereiro deste ano, ele comandou a mesma pasta no Rio de Janeiro.
Para ele, quem tem que manusear armas de fogo são os agentes de segurança treinados para isso. E ponto. “O fato é que arma de fogo na mão de quem não sabe utilizá-la é um perigo. Isso é uma máxima. Arma de fogo deveria estar nas mãos das pessoas que devem usá-las por ofício e que são treinadas e adestradas para isso, porque os acidentes lamentavelmente acontecem em muitas situações”, afirma Sá, ex-tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro e ex-instrutor do Bope.
Ele também se posiciona contra a “política de abate” de criminosos (como a defendida por Wilson Witzel, no Rio), em que policiais teriam carta branca para executar criminosos, por exemplo, que portem fuzis. Também não vê necessidade em se conceder, antecipadamente, o “excludente de ilicitude” para policiais e militares em ação.
Para Sá, é preciso respeitar a legislação vigente, que já contempla as situações em que o policial (ou qualquer pessoa) pode agir em legítima defesa.
“A gente tem um norte, que é a nossa legislação. Então, o que a legislação permitir, e acho que já permite, que se atue em legítima defesa, é assim que a gente vai agir. A polícia vai ter todo o apoio do governo e da secretaria para trabalhar com dignidade e para se impor junto ao crime, que é o que a sociedade precisa. Mas a gente tem que observar a nossa Constituição e a legislação vigente.”
JUSTIÇA E SISTEMA PRISIONAL
No programa de governo de Bolsonaro está escrito: “Prender e deixar preso!” Assim mesmo, com a exclamação. Como candidato, Bolsonaro defendeu uma política de encarceramento em massa.
Por sua vez, o próprio Casagrande tem defendido a racionalização e a qualificação das prisões. “Esse discurso de campanha não tem sustentação. Os Estados não suportam.”
O futuro secretário de Planejamento de Casagrande, Álvaro Duboc, que vai coordenar o programa Estado Presente, afirma que é preciso “deixar preso quem precisa ficar preso”.
O mesmo pensa o próximo secretário de Justiça, Luiz Carlos Cruz (delegado da Polícia Federal, assim como Sá e Duboc). Ao ser apresentado no dia 21 de novembro, Cruz classificou, sem rodeios, o encarceramento em massa como um erro. “Em massa, se você não tiver o motivo correto, sim, é um erro. As pessoas não são iguais. Não têm o mesmo índice de potencialidade ofensiva.”
Também fazendo eco a Duboc e a Casagrande, ele defende a substituição da pena de privação de liberdade por penas alternativas sempre que for possível (ou seja, dependendo da gravidade do crime e da periculosidade do criminoso).
“É preciso qualificar esse encarceramento. O que é um encarceramento necessário ou um encarceramento que efetivamente pode ser trocado por alguma medida alternativa? Agora, é preciso também trazer uma credibilidade para essas medidas alternativas. Que não sejam apenas medidas paliativas”, ressalva ele.
Ainda no campo do sistema penal e prisional, Bolsonaro não é nada simpático às “Audiências de Custódia”, programa instituído pelo CNJ em 2015, que estabelece que um preso em flagrante deve ser apresentado a um juiz em até 24 horas. O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) é autor do projeto de lei que revoga a resolução do CNJ que criou as audiências.
Casagrande é a favor das audiências. Cruz defende até o seu aprofundamento. Para ele, em crimes de menor potencial ofensivo (estelionato, pequenos furtos etc.) e sempre levando-se em conta os antecedentes do preso, a sentença definitiva já deveria ser lavrada pelo juiz na própria audiência, liberando o sistema dos (muitos) presos provisórios.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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