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CAPIXAPÉDIA

Caxirica: a mulher que desafiou paradigmas para jogar futebol em Vitória

Você sabia que, no Brasil, mulheres jogando futebol já foram uma atração de circo?

Publicado em 14 de Abril de 2016 às 18:19

Redação de A Gazeta

Publicado em 

14 abr 2016 às 18:19
Celeste Ribeiro: a Caxirica Crédito: Reprodução | José Carlos Mattedi
Há poucas décadas o futebol ainda era considerado uma atividade violenta e de pessoas "baixas". E para além desse preconceito, o esporte era colocado como uma prática exclusiva de homens, já que, no pensamento da época, mulheres tinham que ser delicadas e ficar reservadas ao espaço privado.
Em 1917 nasce, em Vitória, Celeste Ribeiro, uma mulher que se pôs fora dos enquadramentos sociais que eram impostos a ela. Na sua infância, em uma fazenda em Maruípe, montava a cavalo, ajudava seus avós a cuidar do gado e em seu tempo livre soltava pipa, rodava pião e jogava bola de gude.
Porém a paixão verdadeira de Celeste era o futebol. Jogava no terreiro da fazenda com seus tios e garotos da vizinhança, e mesmo com a repressão de sua avó e todos vizinhos ela sempre dava um jeito de ter uma bola no pé. Logo ganhou um apelido muito peculiar, que não se sabe o significado, "Caxirica".
Sua reputação de boa jogadora se espalhou e não demorou a ser convidada para jogar no campinho que havia na região. Quando Celeste ainda era viva, contou ao José Carlos Mattedi - que escreveu um artigo sobre a Caxirica em seu livro "Anjos e Diabos do ES" que jogava em meio aos meninos sem problemas e se gabou por ter sido uma ponta de lança (posição na época parecida com a meia-atacante) goleadora. Chegou até ser chamada para um pequeno time masculino em Jucutuquara, porém sua avó proibiu.
Caxirica relatou que a sua paixão pelo futebol era eterna, mas foi obrigada a largá-la aos 18 anos por uma pressão social, já que sua família sofria um enorme preconceito por ela ser uma moça 'diferente do comportamento aceito'. Caxirica perdeu seu apelido dos campos de várzea, mas a proibição a carregou para outro lado de sua personalidade.
Decepcionada, ela começou a tocar cavaquinho e participar de grupos amadores de chorinho para afogar as mágoas. Celeste era uma apreciadora da farra e amigos para festejar não lhe faltavam. Futebol para ela, a partir deste momento, somente como espectadora. Acompanhava os jogos do Rio Branco aqui no Estado, mas se tornou fanática mesmo pelo fluminense.
A época em que Caxirica teve seu nome apagado da história era, com certeza, um momento muito repressor para mulheres, porque não era a única jogadora frustrada. Ela tinha amigas que também jogavam e sentiam o mesmo preconceito. O futebol feminino no Brasil sofreu várias vezes com a repressão social e jurídica. Hoje em dia é um esporte olímpico e tem visibilidade mundial, porém nossa cultura, mesmo depois de Cristiane e Marta, ainda não dá a mesma audiência e importância que ao futebol masculino.
Time de futebol feminino do Liceu Muniz Freire, Cachoeiro de Itapemirim, final dos anos 1930 Crédito: Reprodução | José Carlos Mattedi
No Espírito Santo o campeonato estadual teve sua primeira aparição somente em 2010, de acordo com o site da Federação de Futebol do Estado do Espírito Santo. A profissionalização do esporte no Estado ainda engatinha, mas, aos poucos, evitaremos que outras 'Caxiricas' desapareçam de nossa história, frustradas por uma sociedade sem espaço para sua personalidade forte e independente.
E se você ficou curioso com a história da jogadora capixaba é só ler o artigo do escritor José Carlos Mattedi, presente no seu novo livro "Anjos e Diabos do Espírito Santo - Fatos e Personagens da História Capixaba Volume II". O livro será distribuído gratuitamente em seu lançamento na Feira Literária Capixaba, que ocorrerá na Fábrica de Ideias entre os dias 11 e 15 de maio. Além desse local, também será distribuído na Edufes (no campus Goiabeiras da UFES) e no Porto de Vitória, prédio 5, atrás dos Correios no Centro, a partir do dia 18 de maio.

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