Publicado em 8 de outubro de 2024 às 20:06
O X (antigo Twitter) vai voltar a funcionar no Brasil depois que a rede social do bilionário Elon Musk cumpriu as determinações do Supremo Tribunal Federal (STF).>
Em decisão, o ministro Alexandre de Moraes autorizou nesta terça-feira (8) a volta do funcionamento da rede social X no país, após a empresa formalizar sua reabertura no Brasil e cumprir decisões que vinham sendo desrespeitadas, como bloqueio de contas e pagamento de multas.>
O magistrado havia determinado a suspensão da rede social no país em 31 de agosto. A decisão veio após o esgotamento do prazo dado pelo STF para que a empresa comandada pelo bilionário sul-africano indicasse um novo representante legal no Brasil.>
Moraes já havia determinado o bloqueio de contas na rede social acusadas de divulgar mensagens criminosas ou antidemocráticas e, posteriormente, o pagamento de multas aplicadas por manter essas contas no ar.>
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O X afirmou inicialmente que não seguiria as determinações, mas posteriormente voltou atrás. Os advogados que representam a plataforma no Brasil confirmaram no dia 19 de setembro que todas as decisões seriam cumpridas, com a indicação da advogada Rachel de Oliveira Villa Nova como representante legal e o bloqueio dos perfis indicados.>
Antes de autorizar o fim do bloqueio da rede social, Moraes pediu ainda uma comprovação da regularidade e da validade da representação.>
Ele também determinou que diversos órgãos, como a Receita Federal, o Banco Central, a Polícia Federal, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e a própria Secretaria Judiciária do STF, prestassem esclarecimentos e compartilhassem informações sobre o funcionamento do X no país, o pagamento das multas e o acesso dos usuários bloqueados.>
Após a confirmação da intenção de cumprir as decisões, especialistas apontaram que a mudança de posição do X foi provavelmente mais uma resposta à pressão de investidores, acionistas e anunciantes associados às empresas de Musk do que uma concessão política.>
"A decisão me parece muito mais econômica do que uma concessão política", disse Roberto Kanter, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e especialista em empreendedorismo.>
O economista identificou uma "prepotência corporativa" que pode ter levado a plataforma a supervalorizar sua posição no Brasil quando, na realidade, as empresas de Musk tinham muito a perder no mercado local.>
Kanter destacou a Starlink, companhia de internet via satélite que também faz parte do portfólio do bilionário sul-africano. "A grande aposta econômica do holding é a Starlink, que foi afetada por todas as questões do X no Brasil", afirmou.>
O fogo cruzado entre Musk e o STF respingou no outro negócio do bilionário sul-africano depois que a Starlink teve suas contas bancárias bloqueadas no Brasil para garantir o pagamento das multas direcionadas ao X pelo descumprimento das decisões judiciais.>
Os fundos foram liberados após a quitação, mas a empresa de satélites também foi colocada sob pressão após o surgimento de rumores sobre o seu bloqueio no país por não cumprir as ordens de Moraes para impedir que seus clientes pudessem acessar o X a partir das suas conexões via satélite.>
A Starlink acabou cumprindo as decisões judiciais, mas o mero receio de que a companhia pudesse ser tirada do ar no Brasil deixou clientes e especialistas preocupados.>
A empresa também foi afetada por uma nova multa emitida por Moraes, de R$ 5 milhões por dia, por conta do descumprimento temporário do bloqueio ao X após uma mudança de servidores.>
Em pouco mais de dois anos de operação, a Starlink se transformou em líder em um segmento pequeno, mas estratégico no setor de telecomunicações do país: o de internet via satélite.>
Neste período, a empresa passou a ser fornecedora de importantes órgãos públicos do governo federal como o Exército, a Marinha, os ministérios da Saúde e Educação além da gigante Petrobras.>
"A Starlink oferece um serviço totalmente diferente do X, altamente tecnológico, e foi arrastada para tudo isso com o bloqueio dos seus bens”, disse Bruna Santos, da Digital Action, uma organização global que advoga por melhores padrões digitais dos governos e das Big Tech.>
Segundo a especialista, Musk arrastou suas empresas para uma disputa de sua esfera pessoal, o que provavelmente desagradou seus acionistas.>
Advogados de fundos de investimento que têm negócios com o magnata afirmaram ao jornal Correio Braziliense sob condição de anonimato que o descumprimento das decisões judiciais pelo X abriu as portas para uma retração nos investimentos e afastamento de novos interessados, gerando desconforto e pressão para uma mudança de posição.>
Ainda de acordo com uma das fontes, o bloqueio da rede social no Brasil e a instabilidade em torno da continuidade dos serviços da Starlink reforçou a posição de competidores das empresas de Musk no país.>
A rede social Bluesky, que tem funções semelhantes à plataforma do bilionário sul-africano, ganhou 2 milhões de novos usuários no país nos três primeiros dias após o X parar de funcionar. Muitos usuários também relataram ter migrado para o Threads, outro aplicativo concorrente de propriedade da Meta.>
E segundo reportagem do jornal Financial Times, o êxodo de usuários para outras redes tem sido observado também em outros países.>
No Reino Unido, onde o fenômeno é mais aparente segundo o veículo, dados da empresa especializada em análise de tráfego na web Similarweb mostram que o número de usuários do X caiu de 8 milhões para apenas cerca de 5,6 milhões em um ano.>
A maior parte dessa saída se deu durante a onda de violência anti-imigração e racista que tomou algumas cidades do Reino Unido no início de agosto, diz o FT. Nesse período, Musk fez postagens sobre o tema que geraram polêmica - uma, em especial, dizia que uma guerra civil no país era “inevitável”.>
Bruna Santos lembrou ainda que as disputas de Musk com a Justiça no Brasil e em outras nações, assim como a associação de suas marcas com conteúdos extremistas, têm levado a outro êxodo: o de anunciantes.>
"A plataforma depende em algum nível de investidores, mas também de sua imagem pública", afirma.>
Musk comprou o Twitter em 2022 por US$ 44 bilhões. Segundo a revista Forbes, ele possui cerca de 74% da empresa, agora chamada X.>
Mas uma pesquisa publicada no início de setembro pela empresa dados Kantar, com base em entrevistas feitas com 18.000 consumidores e 1.000 profissionais de marketing ao redor do mundo, indicou que 26% dos profissionais da área estão planejando cortar gastos com anúncios no X em 2025.>
Ao mesmo tempo, a situação de Musk no Brasil tomou novas proporções com a autorização para o funcionamento da E-Space pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A empresa compete com a Starlink no mercado de internet via satélite.>
O direito de exploração foi concedido pelo prazo de cinco anos. A E-Space apresentou como plano um sistema que pode ter até 8.640 satélites, ainda que esse número seja apenas teórico, e tem dois anos para iniciar as operações no país.>
Antes do bloqueio, o Brasil tinha cerca de 22 milhões de usuários no X - ou algo em torno de 4% do total de usuários da plataforma em todo o mundo.>
O Brasil está entre os países com mais usuários da rede social, mas fica bem atrás dos primeiros colocados da lista. Estima-se que os Estados Unidos tenham algo em torno de 106 milhões de usuários, enquanto o Japão chega a mais de 70 milhões.>
Ainda assim, especialistas da área veem o Brasil como um mercado promissor em termos de exploração de redes sociais.>
O país é o terceiro que mais usa redes sociais no mundo, atrás apenas da Índia e da Indonésia, segundo um levantamento da Comscore.>
Outra pesquisa realizada pela Adyen, companhia de tecnologia de pagamentos para grandes empresas, mostrou que as redes sociais são utilizadas por 65% dos brasileiros na hora de fazer compras online.>
E o Twitter já foi uma das plataformas preferidas de investimento por parte do mercado publicitário nacional. Segundo uma reportagem da revista Forbes Brasil, em 2021, a rede chegou a ter no Brasil sua quarta principal operação.>
De acordo com Denise Porto Hruby, CEO do IAB Brasil, entidade que trabalha para o desenvolvimento da publicidade digital, o Twitter trouxe cenários bem inovadores a partir do seu lançamento no país, em 2008.>
“O Twitter ampliou as possibilidades e criou ambientes de conversas entre pessoas e marcas, de senso de comunidade e deu espaço para um ambiente mais solto, além de uma visão pioneira de continuidade e ampliação das mensagens quando integradas aos outros meios”, disse em posicionamento enviado à BBC Brasil.>
Mas para o economista Roberto Kanter, da FGV, o X no Brasil tem mais valor do ponto de vista simbólico para os negócios de Musk do que no âmbito econômico.>
“O volume de usuários ativos do X no Brasil nem se compara a de outras redes mais populares, como Instagram e WhatsApp”, disse. “Mas como ela é uma mídia muito utilizados pelos influenciadores e formadores de opinião, ela passa a ter um peso símbólico que por vezes é maior do que o econômico.>
Segundo Kanter, isso certamente também teve influência sobre a decisão da rede social de voltar atrás e mudar sua postura sobre o cumprimento das decisões judiciais.>
Já a atuação da Starlink no Brasil tem enorme peso econômico para a empresa.>
Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que a companhia tem uma participação modesta no mercado brasileiro de acesso à internet, com um número de assinantes que representa apenas 0,5% de todos os 49,7 milhões de conexões no país.>
Mas a Starlink é líder no segmento de internet via satélite, no qual teve uma ascensão meteórica.>
Em janeiro de 2023, segundo a Anatel, a Starlink era a quinta principal provedora do mercado e responsável por 4,7% da internet via satélite no país. Um ano e sete meses depois, em julho deste ano, a empresa já havia assumido a liderança do mercado com 45,9% de participação no mercado.>
O sucesso da companhia, apontam especialistas, é justamente o fato de que sua tecnologia se mostrou acessível, eficiente e relativamente barata em áreas consideradas remotas e onde a fibra ótica ainda não chegou, como em algumas regiões da Amazônia, ou em áreas onde esse tipo de conexão é impossível como em alto mar.>
O setor de internet via satélite também tem boas perspectivas de crescimento em todo o mundo, com expectativas de que deverá crescer a uma taxa de crescimento anual composta de 33,7% de 2023 a 2028, de acordo com um relatório de janeiro deste ano.>
Um levantamento feito pela BBC News Brasil com base no Portal da Transparência e no Diário Oficial da União (DOU) apontou ainda que a Starlink se transformou em uma importante fornecedora de internet via satélite para diversos órgãos públicos e estatais.>
Os contratos não foram firmados diretamente com a empresa de Musk, mas com operadoras credenciadas pela Starlink para atuarem no Brasil.>
O contrato de uma dessas operadoras com a Petrobras é, de longe, o mais vultoso identificado até agora.>
Segundo documentos obtidos pela BBC News Brasil, em agosto de 2023, a Petrobras firmou um contrato de US$ 24 milhões com a empresa MTNSAT para que ela fornecesse o serviço de internet via satélite oferecido pela Starlink.>
O valor é equivalente a R$134 milhões.>
Documentos elaborados pelo Exército e pela Marinha apontam ainda uma certa dependência do Brasil em relação à Starlink.>
Em pareceres elaborados pelas duas Forças em resposta a um requerimento de informação feito pelo deputado federal Coronel Meira (PL-PE), em junho deste ano, o Exército disse que o serviço prestado pela Starlink é considerado estratégico por fornecer internet de qualidade em regiões remotas. Segundo o órgão, uma eventual suspensão das atividades poderia causar problemas às tropas.>
“O Brasil é uma potência agrícola que tem vários bolsões que necessitam de conexão à internet. E o serviço oferecido pela Starlink é uma maneira muito prática de se conectar, com um custo bom”, avalia Kanter.>
“Não faria sentido do ponto de vista econômico o dono da empresa continuar a bater de frente com o governo brasileiro.”>
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