Publicado em 14 de junho de 2023 às 08:01
Alertas de desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros sinalizam a urgência do combate ao fogo na iminência do período de estiagem - quando a vegetação derrubada costuma ser queimada. Neste ano, a situação pode se agravar com a chegada do El Niño, cujo início foi declarado por cientistas na última sexta-feira (8).>
O fenômeno climático deve acentuar a temporada seca e quente na floresta amazônica, aumentando o risco de degradação por incêndios.>
Especialistas veem na convergência de desmatamento em alta e ocorrência de El Niño um cenário de "tempestade perfeita" para a destruição do bioma. Por isso, pesquisadores afirmam que o país precisa acelerar ações e regulamentar sua política nacional para o manejo de fogo nas áreas rurais.>
O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, afirma que "após quatro anos de desmonte das políticas ambientais no país, a nova gestão do Ibama está preparada para o combate e a prevenção dos incêndios florestais". O orçamento, de acordo com a pasta, cresceu 113% em relação ao ano anterior.>
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Outra medida necessária, apontam cientistas, é concentrar esforços no combate à degradação florestal, problema que costuma suceder ações de desmatamento e pode levar a cenários como o ponto de não-retorno, quando a floresta não consegue mais se regenerar.>
Para especialistas ouvidos pela reportagem, a grande aposta do governo federal para reduzir o desmatamento na floresta, o novo PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), não oferece indicadores e medidas de curto prazo para enfrentar o fogo.>
Isso porque o tipo de fogo que gera mais danos à floresta amazônica, segundo a pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Oxford, começa agora. É o incêndio utilizado por criminosos como uma "limpeza" do desmatamento.>
"Depois de o trator de esteira entrar e derrubar a floresta, você deixa ali a floresta secando por semanas ou meses, até tocar fogo", explica.>
Berenguer ressalta que a temporada desse tipo de queimada, em 2023, se dá numa floresta mais quente e com redução de chuva em alguns pontos, riscos que se somam aos efeitos do El Niño, que deve avançar nos próximos meses.>
O fenômeno é marcado por um aquecimento acima da média no oceano Pacífico, perto da linha do Equador. Ele muda a circulação dos ventos alísios, que vão de leste a oeste, levando umidade e águas mais quentes da costa das Américas para Ásia e Oceania. Também é associado a recordes globais de temperatura.>
No Brasil, há um aumento generalizado de temperatura, e uma acentuação do tempo quente e seco na região Norte, o que agrava os riscos de propagação do fogo na Amazônia.>
Celso Silva Junior
Professor do programa de pós-graduação em biodiversidade e conservação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA)Silva, que integra o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), afirma que 69% da área da Amazônia estão sujeitos a seca. Para ele, 2015 e 2016, anos de El Niño, foram marcos das mudanças de intensidade do fenômeno ao longo do tempo e indicam os riscos que o país corre novamente agora.>
O MMA (Ministério do Meio Ambiente), em nota à reportagem, afirma que a contratação de mais brigadistas e de duas aeronaves adicionais está em curso.>
"A previsão é de um aumento aproximado de 18% de brigadistas em relação a 2022, com atuação de 2.101. Destes, 1.385 atuarão na Amazônia Legal (AM, AP, AC, RR, MT, RO, TO, MA), ou seja, um aumento de 15% do número de brigadistas previstos nos estados em comparação ao ano passado", detalha a pasta.>
Além dessas ações, o MMA diz que "a área de atuação direta do Ibama (competência federal) será ampliada para 50%, atingindo cerca 300 mil km2" e que "serão realizadas práticas de manejo do fogo, como queima prescrita, para minimizar a ocorrência de grandes incêndios".>
A degradação da floresta - com partes queimadas ou de madeira extraída - é vista pelos pesquisadores como um dano por vezes mais grave do que o desmatamento. O cenário se compara a um queijo suíço: os satélites que mapeiam o desmatamento identificam a copa das árvores numa área (ou a falta delas), mas não conseguem captar os buracos do queijo. O problema, assim, passa ao largo das estatísticas.>
"É aí que você tem a mudança na floresta que chamamos de degradação", resume Berenguer.>
O dano resulta em mais emissões de CO2 e na falta de capacidade de a floresta atuar na regulação climática. Por isso, há efeitos nocivos, inclusive, na saúde de populações da região.>
Em um documento da Rede Amazônia Sustentável elaborado em março deste ano, especialistas, incluindo Berenguer e Silva, recomendam a criação de indicadores da degradação e a definição de prioridades a partir deles para proteger a floresta.>
Outro ponto recomendado é a criação de um fundo emergencial para o combate a incêndios florestais. Esses itens, critica a pesquisadora, não foram considerados pelo governo Lula (PT) no novo PPCDAm.>
Para Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam, o Brasil precisa reduzir o desmatamento e o uso de fogo, principalmente na agropecuária, apontada como maior vetor de desmate.>
Ane Alencar
Diretora de ciência do IpamEla explica que o principal problema na criação de gado é a sobrepastagem. O processo sobrecarrega o solo quando há uma concentração de cabeças de gado em uma determinada região, sem rotatividade.>
Com o solo exposto, brotam as chamadas plantas pioneiras, arbustos e espécies com espinhos, que formam o que é conhecido como "pasto sujo". Para limpá-lo e dar lugar ao capim, os produtores usam o fogo.>
Segundo Alencar, a comunicação com produtores rurais é fundamental, junto ao manejo, para reverter o uso de fogo nessas situações. Ela defende, por isso, a aprovação de uma política nacional de regulação, que hoje aguarda análise no plenário do Senado.>
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