Publicado em 26 de julho de 2021 às 17:28
Diante do crescente desgaste do governo Jair Bolsonaro (sem partido) com os demais Poderes, o Palácio do Planalto já admite que é inviável a aprovação da PEC (proposta de emenda à Constituição) do voto impresso na comissão especial que avalia a matéria. >
O próprio presidente admitiu a previsão de derrota na sexta-feira (23) ao conversar com apoiadores no Palácio da Alvorada.>
"Na comissão, não passa", afirmou o mandatário. "O que a gente quer é jogar dentro das quatro linhas da Constituição e queremos eleições limpas. Eleições que não sejam limpas não são eleições", afirmou o presidente, que nunca apresentou nenhum indicativo concreto de fraude em eleições.>
Embora bolsonaristas digam acreditar em uma esperança de reversão em plenário de uma provável derrota no colegiado, auxiliares diretos do presidente já fizeram contas e dizem que essa hipótese é difícil.>
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Bolsonaro e sua tropa de choque atribuem o cenário desfavorável ao que consideram uma interferência do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso, que se tornou alvo de críticas e xingamentos do chefe do Executivo. Bolsonaro também passou a fazer ameaças golpistas, colocando em dúvida a realização do pleito de 2022.>
Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) articularam com 11 partidos um movimento contra a mudança na urna eletrônica e botaram em xeque a maioria que Bolsonaro tinha em relação ao tema na Câmara.>
Bandeira do bolsonarismo, o voto impresso quase foi derrotado na última reunião do primeiro semestre na comissão especial da Câmara, mas uma manobra de governistas adiou a votação para 5 de agosto, depois do recesso parlamentar, que vai de 18 a 31 de julho.>
No colegiado, a votação da PEC ocorre por maioria simples. Caso a proposta seja derrubada, cabe ao presidente da comissão designar um outro relator para elaborar um parecer pela rejeição.>
Mesmo com derrota na comissão, o tema ainda pode ser deliberado pelo plenário. No entanto, um voto contrário no colegiado é um sinal político forte, que dificilmente é revertido.>
Mesmo que avance com parecer favorável na comissão especial, para aprovar uma PEC em plenário são necessários ao menos 308 votos na Câmara (de um total de 513 deputados) e 49 no Senado (de um total de 81 senadores), em votação em dois turnos.>
Para valer para as eleições de 2022, a proposta teria que ser promulgada até o início de outubro.>
A polêmica do voto impresso chegou às Forças Armadas graças ao ministro da Defesa, general Walter Braga Netto.>
Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo publicada na quinta-feira (22) afirma que o ministro teria mandado um recado por meio de um interlocutor ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de que, sem a aprovação do voto impresso, não haveria eleições em 2022.>
De acordo com o jornal, Lira teria dito ao interlocutor que não participaria de nenhuma ruptura institucional. Abordado por jornalistas ao chegar ao Ministério da Defesa, Braga Netto chamou a reportagem de "mentira, invenção".>
Ao se manifestar sobre o assunto, o general leu uma nota que espelha o discurso do chefe, afirmando que existe no país uma demanda por legitimidade e transparência nas eleições.>
Segundo ele, mais uma vez levantando uma bandeira bolsonarista, a discussão sobre o "voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima".>
"Acredito que todo cidadão deseja a maior transparência e legitimidade no processo de escolha de seus representantes no Executivo e no Legislativo em todas as instâncias", afirmou o militar.>
"A discussão sobre o voto eletrônico auditável por meio de comprovante impresso é legítima, defendida pelo governo federal, e está sendo analisada pelo Parlamento brasileiro, a quem compete decidir sobre o tema", afirmou, em um recado indireto a ministros do STF.>
O recesso parlamentar dificulta a leitura política do governo sobre as consequências da entrada de Braga Netto, publicamente, nas discussões sobre eleições 2022.>
A coluna Painel, da Folha de S.Paulo, mostrou na sexta-feira que, na avaliação de integrantes do centrão, do STF e até de auxiliares de Bolsonaro, a nota lida por Braga Netto um dia antes negando ameaças golpistas, mas se imiscuindo na pauta do voto impresso, o expôs ainda mais e acabou se mostrando um tiro no pé, já que a contrariedade em relação à proposta cresceu e ganhou apoio popular.>
Além disso, o comportamento teria evidenciado certa subserviência do general ao presidente.>
Em certos grupos do Judiciário e do Legislativo cresce a avaliação de que é preciso afastar militares de decisões políticas.>
A insatisfação com os militares em postos do governo não é nova. Os primeiros sinais surgiram ainda no ano passado por causa da atuação do general Eduardo Pazuello como ministro da Saúde no enfrentamento da pandemia de Covid-19.>
O perfil mais político de Braga Netto à frente da Defesa também já causava insatisfação entre civis e militares, principalmente os fardados mais jovens, que veem a aproximação das Forças Armadas com a política trazer de volta à sociedade o fantasma da ditadura militar.>
Braga Netto substituiu o general Fernando Azevedo e Silva, demitido do Ministério da Defesa em março diante da insatisfação de Bolsonaro por não ter do militar o apoio político que desejava.>
O general Luiz Eduardo Ramos, que comanda a Casa Civil, foi rebaixado para o comando da Secretaria-Geral da Presidência após pressão do centrão, que pode chefiar a principal pasta do governo. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi convidado para o cargo.>
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