Publicado em 22 de agosto de 2024 às 10:00
Mais da metade dos municípios brasileiros atravessaram o mês de julho em condição de seca, de moderada a extrema. >
Essa classificação, feita pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) do governo federal, mede a gravidade da estiagem, partindo de seca fraca, moderada, severa e, por fim, extrema. >
De acordo com o monitoramento, 404 cidades registraram seca extrema no mês passado, 1.361 seca severa e 1.068 moderada.>
Em relação a junho, o monitoramento mostra que a situação se agravou: a quantidade de municípios com seca extrema aumentou quatro vezes, e com seca severa saltou de 918 para 1.361. >
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Para se ter uma dimensão do agravamento, em junho do ano passado, o número de cidades em situação de seca severa era 44.>
A previsão para o mês de agosto é que este cenário piore ainda mais, especialmente no Amazonas, Acre, Mato Grosso, Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. >
No Brasil, as secas são registradas oficialmente desde o fim do século 19. Mas desde o início do século 21, um novo fenômeno relacionado à estiagem vem sendo estudado no mundo: as secas-relâmpago.>
"O termo foi definido por um grupo de pesquisadores americanos em 2002", explica o pesquisador brasileiro Humberto Barbosa. >
"E desde então, há vários estudos publicados, todos relacionando esse conceito às mudanças climáticas.">
Barbosa explica que, enquanto a seca normalmente é "silenciosa", causando efeitos que não são visíveis logo no seu início, a seca-relâmpago é, como seu nome diz, mais rápida. >
“A seca-relâmpago ocorre a partir de uma conjunção de fatores que inclui a redução de chuva, o aumento da temperatura acima da média, baixa umidade do solo e alta demanda evaporativa [quando mais água evapora da superfície e transpira das plantas, esgotando a umidade do solo rapidamente]”, explica o pesquisador.>
Por ser repentina e causar grande estrago, o desafio é prever esse fenômeno para tentar mitigá-lo. E é nisso que Barbosa vem trabalhando, por meio de um sistema de inteligência artificial.>
O projeto-piloto, que teve início há dois anos, foi desenvolvido tendo como foco o semiárido brasileiro, localizado na região Nordeste, e que historicamente sofre com a escassez hídrica. Mas a ideia é expandir as previsões para todo o território nacional.>
Os dados já coletados apontam para secas-relâmpago mais extremas nas próximas décadas na bacia do rio São Francisco, em razão do aquecimento global.>
A região abrange municípios dos Estados de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, além do Distrito Federal. >
A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), onde Barbosa é professor.>
Para entender a dinâmica do fenômeno, alguns parâmetros são analisados, como temperatura, transpiração do solo e das plantas, cobertura vegetal e umidade do solo. >
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Barbosa e sua equipe abastecem a inteligência artificial com essas informações para treiná-la. A ideia é que, futuramente, seja possível prever uma seca-relâmpago, usando essa previsão de alerta. >
Barbosa acredita que, sabendo de antemão, será possível, por exemplo, preparar o solo para a estiagem. >
O pesquisador alerta, no entanto, que as secas-relâmpago estão atreladas às mudanças climáticas. Isso significa que o fenômeno deve ser cada vez mais comum.>
O cenário desenhado pelo Cemaden para o mês de agosto, com o agravamento da estiagem em especial nas regiões Sudeste e Centro-oeste, é semelhante ao previsto por Humberto Barbosa.>
“A situação é muito crítica para o Sudeste e Centro-Oeste nos próximos meses”, afirma ele. >
“Neste momento, há 70% de chances de termos a massa de ar seco atuando ainda em setembro e parte de outubro sobre a região. Será um ano crítico”.>
Ele acrescenta que, inclusive, os fatores são favoráveis para tempestades de areia na região. “E podem ser muito mais intensas do que as anteriores”, diz.>
Já no Norte do país, no Estado do Amazonas, foi declarado estado de emergência em 20 cidades no mês passado devido à seca. >
Barbosa explica que as secas repentinas estão inclusive favorecendo o aumento nos focos de incêndio na Amazônia.>
Mas, para Gilvan Sampaio, coordenador-geral de ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o que vem acontecendo, tanto na região Sudeste do país, quanto no Amazonas, não tem relação com secas-relâmpagos, fenômeno que ele refuta. >
“A seca é um processo que leva meses, por isso eu não considero esse fenômeno das secas-relâmpago como existentes”, diz Sampaio.>
De acordo com ele, a estiagem que castiga o Amazonas pelo segundo ano consecutivo é consequência do aquecimento das águas do Atlântico Tropical Norte. >
“Quando a temperatura da água fica mais aquecida, o ar sobe, e, quando desce, desce mais quente também, impedindo a formação de chuva”, afirma Sampaio.>
“Isso não tem relação com o El Niño, fenômeno que terminou em junho e causa um aumento de temperatura nas águas do Pacífico. O Atlântico Tropical Norte está aquecido há dois anos em decorrência do aquecimento global.”>
Por outro lado, a seca no Sudeste e no Centro-Oeste é uma característica da estação que estamos vivendo, o inverno, de acordo com ele.>
“Não há nenhuma novidade aí. Exceto por uma sensação de que o clima está mais seco, que é devido à temperatura que está mais alta, isso sim, associado ao El Niño”, diz Sampaio.>
De acordo com o pesquisador, o aumento das temperaturas acaba bloqueando as frentes frias, que não conseguem chegar nas regiõese, consequentemente, a chuva não cai. >
“Foi um bloqueio atmosférico, inclusive, que fez com que as chuvas ficassem presas sobre o Rio Grande do Sul em abril e maio”, explica.>
Embora as secas-relâmpago não seja um consenso entre os pesquisadores, o fenômeno é reconhecido pela Nasa, a agência espacial americana.>
Inclusive, a agência publicou um estudo recente mostrando que era possível detectar seus sinais até três meses antes do início.>
Os cientistas descobriram que a chave para isso está no brilho das plantas, imperceptível a olho nu, mas detectados por satélites.>
A explicação gira em torno de um processo químico. Durante a fotossíntese, quando a planta capta a luz solar para transformá-la em energia, sua clorofila acaba vazando alguns fótons não utilizados. >
Trata-se de um brilho fraco, chamado tecnicamente de fluorescência induzida pela energia solar. >
Quanto mais forte for a fluorescência, mais dióxido de carbono uma planta retira da atmosfera para impulsionar seu crescimento.>
Esse brilho não é visto a olho nu. No entanto, é detectado por alguns instrumentos a bordo de satélites. É justamente aí que as previsões das secas-relâmpago começam. >
Isso porque, os pesquisadores fizeram uma comparação de anos de dados de captação dessa fluorescência com um inventário de secas-relâmpago que atingiram os Estados Unidos entre 2015 e 2020.>
O que os pesquisadores descobriram foi que, nas semanas e meses que antecederam uma seca-relâmpago, as plantas emitiram uma fluorescência muito mais forte. Esse sinal era reduzido à medida que o solo ficava mais seco.>
Os pesquisadores compararam anos de dados de fluorescência com um inventário de secas repentinas que atingiram os Estados Unidos entre maio e julho de 2015 a 2020 e encontraram um efeito dominó.>
Nas semanas e meses que antecederam uma seca-relâmpago, a vegetação inicialmente prosperou à medida que o clima foi ficando mais quente e seco.>
De acordo com o estudo, as plantas florescentes emitiram um sinal de fluorescência "extraordinariamente forte" para a época do ano, o que, para os pesquisadores, foi um sinal de que a seca-relâmpago estava por vir.>
A pesquisa de Barbosa também tem ligação com a Nasa, já que a agência manteve sua bolsa de doutorado pela universidade do Arizona, nos Estados Unidos. >
Para o pesquisador, criar um sistema capaz de prever o fenômeno com alguma antecipação é uma das chaves para o enfrentamento das consequências das mudanças climáticas. >
“Mesmo que a gente consiga fazer uma boa redução das emissões de gás carbônico, há um resíduo de emissões que vai manter essas secas pelos próximos anos e décadas”, diz o pesquisador brasileiro. >
“As pessoas ainda não têm uma dimensão do impacto das mudanças climáticas na formação dessas secas-relâmpago.">
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