Publicado em 21 de julho de 2022 às 15:05
Uma pesquisa revelou que 51% das mães brasileiras sentem culpa na maternidade. Elas se sentem culpadas em relação aos bebês, por acharem que poderiam fazer mais por eles, e por desejarem voltar a vida anterior ao nascimento das crianças.>
O estudo também mostrou que a sensação de culpa é ainda mais intensa em mães solo. Entre as entrevistadas, 45% apontaram esse como um sentimento que se identificam.>
Mães de todas as configurações familiares também afirmam que se sentem julgadas. Questionadas se concordavam ou não com a frase "me sinto julgada como mãe", 42% responderam que concordam com a sentença.>
Os dados fazem parte da pesquisa "Parentalidade Real" realizada pelo instituto On The Go e encomendada pela Huggies. O estudo, que contou com 1.010 mães e pais de 25 a 40 anos de todo o Brasil, foi realizado em fevereiro deste ano.>
>
Para Ana Carolina de Oliveira Queiroz, psicóloga perinatal e especializada em parentalidade, a culpa é provocada por vários fatores. "Tem a questão de como essa mulher idealizou a própria maternidade", ela comenta. "Mas existe também um fator social".>
A construção da imagem da mãe como guerreira e super-heroína cria uma expectativa irreal do que é a maternidade e desumaniza as mulheres, diz com Queiroz, que também é estudiosa de causas sociais maternas.>
O estudo também trata das maiores preocupações das famílias em relação aos filhos. Educação (84%) e saúde (82%) são as principais inquietações dos pais de todas as configurações familiares. Segurança e alimentação aparecem em seguida, em 74% e 72% das respostas, respectivamente.>
A inclusão também é uma preocupação. Quando questionados sobre educação, os temas mais relevantes para os pais foram o racismo (73%), diversidade (63%) e religião (62%).>
Angie Cunha, 38, se tornou mãe solo quando a filha, hoje com 8 anos, tinha apenas 8 meses. O divórcio fez com que ela assumisse a responsabilidade da criação da menina.>
"Eu me culpava muito pelo abandono paterno, me sentia menos mãe por isso", relata. Cunha ainda comenta que se sente julgada o tempo todo, principalmente por não ter escolhido um bom pai.>
Entre janeiro e junho de 2022, mais de 87 mil crianças foram registradas sem o nome do pai, de acordo com o Portal da Transparência do Registro Civil. Em todo o ano de 2021, foram mais de 163 mil crianças, cerca de 6% do total de nascidos.>
Para a maquiadora Nathalia Camilo, 27, a culpa também está relacionada à paternidade. Ela tem uma filha de 3 anos e diz já ter questionado se o afastamento entre o pai e a criança não era culpa dela.>
O preconceito é uma das maiores angústias da maquiadora, que tem medo de a filha passar por situações de racismo e bullying. De acordo com o estudo, mães solo são as que mais se preocupam com o preconceito.>
"Principalmente por ela ser uma criança negra, todos os dias eu tenho uma preocupação", diz a maquiadora.>
Quando engravidou, sua família se afastou. Também não foi amparada pelo pai da sua filha e teve uma gestação de risco por ter desenvolvido infecção urinária. Durante esse período, sua principal rede de apoio eram amigas.>
A mãe de Camilo não recebeu bem a gravidez da filha, mas hoje ela se dá bem com a criança e, segundo a maquiadora, é a maior fonte de apoio que ela tem para conseguir estudar, trabalhar e cuidar da menina.>
Assim como ela, 43% das mães solo relatam precisar de ajuda da família para cuidar das crianças. Para os casais biparentais, 46% afirmam que a principal ajuda são os próprios parceiros.>
A pesquisa também indica que pouco mais da metade das mãe solo, 56% delas, receberam algum apoio durante a gestação. Quando o assunto são mães de todas as configurações familiares, 59% afirmam que os parceiros estiveram presentes durante toda a gravidez.>
De acordo com a psicóloga Queiroz, a falta de apoio faz com que mães solo sofram da chamada sobrecarga materna - quando todas as responsabilidades domésticas e de criação do filho recaem sobre a mãe. Essa sobrecarga causa fadiga, desinteresse, falta de energia e desesperança, podendo levar ao burnout e à depressão.>
A especialista observa, porém, que os mesmos efeitos podem ocorrer com mulheres de famílias biparentais onde os parceiros não participam ativamente do cuidado com os filhos.>
A saúde das mães também impacta as crianças. Para Alessandra Almeida, psicóloga e conselheira do Conselho Federal de Psicologia, o desenvolvimento saudável da criança e a criação do laço afetivo materno dependem do bem-estar da mãe, que só pode ser atingido caso haja uma rede que dê suporte a essa mulher.>
"Você sentir-se responsável pelo desenvolvimento, pela transformação, pelo crescimento de um ser humano é algo incrível, só que precisa que você esteja emocionalmente disponível", disse Almeida.>
De acordo com a conselheira, que também é mestra em estudos interdisciplinares sobre mulheres, gênero e feminismo, não é possível educar uma criança sem ajuda. Entretanto, ela ressalta que não se deve esperar que uma mulher precise de um homem para ter um filho.>
Para ela, essa rede deve ser composta por políticas públicas como a melhoria de creches, maior preparo de varas familiares e criação de programas de qualificação profissional de mães, além de grupos de apoio emocional, seja na família, entre amigos ou com outras mães solo.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta