Publicado em 9 de agosto de 2021 às 07:01
A vacinação no Brasil avança a passos largos, com centenas de milhares de brasileiros recebendo a primeira ou a segunda dose das injeções contra a Covid-19 todos os dias. Com a chegada da variante delta ao país, porém, especialistas afirmam que é preciso cuidado, principalmente com indivíduos não imunizados ou imunizados de forma parcial. >
O aumento recente de casos em países que já viam a flexibilização total no horizonte, como Estados Unidos e Inglaterra, acende um alerta para o afrouxamento de regras no Brasil. >
Os temores em relação à delta foram confirmados em um relatório interno do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) norte-americano, divulgado recentemente, que compara a transmissão dessa variante à da catapora. >
Um outro estudo, ainda sem revisão por pares, indica que a delta gera uma carga viral 1.260 vezes maior do que a cepa original. Além disso, a proteção contra a delta só é desenvolvida após 15 dias da aplicação da segunda dose das vacinas em uso hoje no Brasil.>
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Veja abaixo o que os especialistas dizem sobre como se proteger, quais medidas tomar e o que é possível fazer ou não, mesmo após as duas doses da vacina, frente ao risco de infecção pela variante. >
Se estou vacinado, por que devo me preocupar com a variante delta? >
As vacinas não garantem 100% de eficácia contra o coronavírus Sars-CoV-2 --nenhum imunizante ou medicamento tem esse poder. Assim, a alta circulação do vírus no Brasil e as novas variantes fazem o risco de infecção crescer. >
Em países com mais de 60% da população imunizada, como é o caso da Inglaterra, de Israel e dos EUA, os casos voltaram a subir em julho após meses de queda. Essa alta é atribuída à variante delta. >
A maioria dos novos casos foi registrada em indivíduos não vacinados. Nos EUA, por exemplo, os estados que tiveram maior alta são também os que apresentam a menor taxa de indivíduos completamente imunizados, e mais de 97% dos novos casos surgiram em pessoas não vacinadas. >
Infecção em indivíduos totalmente imunizados, apesar de rara, ainda pode ocorrer. Isso porque a maioria das vacinas desenvolvidas até agora protege contra os sintomas, o agravamento do quadro ou o óbito pela doença, mas não tem o poder de conter totalmente o contágio em si. >
Qual é o risco real de contrair Covid mesmo após a imunização completa? Esse risco aumenta com a variante delta? >
Segundo Esper Kallás, infectologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, as vacinas contra a Covid-19 oferecem alto grau de proteção, que é mantida para quadros graves da doença e mortes, mas há um leve escape na proteção oferecida contra contágio pela variante delta. >
Um estudo recente publicado na revista científica Nature mostrou que a efetividade das vacinas para bloquear a entrada do vírus nas células é reduzida, mas ainda fica acima de 60% após duas doses da Pfizer/BioNTech e da Oxford/AstraZeneca. >
Já um artigo recente publicado no periódico The New England Journal of Medicine indica que, após apenas uma dose da vacina dessas fabricantes, a proteção por resposta humoral (de anticorpos) cai de 49% para 30,7% e, com as duas doses, de 93,7% para 88%, no caso da Pfizer, e de 74,5% para 67% com a Oxford/AstraZeneca. >
Esses dados mostram que, apesar de ser menos frequente, a infecção após imunização completa, conhecida como escape vacinal, ainda pode ocorrer. Em geral, contudo, os sintomas tendem a ser mais brandos. >
"A pessoa pode ter uma infecção por Covid com nariz escorrendo, um pouquinho de febre que vai embora. O fundamental é pensar que a vacinação é uma estratégia coletiva, não individual, e quanto mais pessoas tivermos vacinadas na comunidade, maior será o grau de proteção geral", diz Kallás. >
A máscara é útil contra a variante delta? >
Especialistas afirmam que, independentemente do tipo de variante em circulação, as medidas de proteção devem permanecer as mesmas, isto é, distanciamento social, uso correto de máscaras, higiene das mãos e vacinação. >
Para Vitor Mori, físico e pós-doutorando da Universidade de Vermont e membro do Observatório Covid-19 BR, o foco não deveria ser a variante em si, mas o possível aumento no número de novos casos e hospitalizações. >
"Com relação à delta, é fundamental entender que as medidas de prevenção não mudam e que tudo o que fazíamos antes continua funcionando. Temos que redobrar o cuidado de prevenção dentro do que é factível", diz. >
Mesmo pessoas vacinadas com as duas doses devem continuar usando as máscaras até que toda a população esteja vacinada, afirma a imunologista Cristina Bonorino. Além disso, ela lembra que já há um consenso na comunidade científica que as máscaras do tipo PFF2 são as que oferecem a melhor proteção e devem ser priorizadas, sobretudo em espaços fechados. >
A variante delta interfere nos planos de voltar a frequentar espaços fechados, como bares, restaurantes, academia e salas de aula? >
Espaços fechados ampliam o risco de contágio porque uma pessoa infectada que esteja no ambiente pode liberar o coronavírus em partículas menores que ficam suspensas o ar. >
"Em ambientes fechados e sem ventilação, é possível ter essas partículas como nuvens no ar, o que favorece a transmissão, principalmente quando se tem máscaras de baixo poder de filtração", afirma Raquel Stucchi, infectologista e professora da Unicamp, >
Recentemente, o CDC reorientou a população a utilizar máscaras de proteção em locais públicos e fechados devido ao aumento no número de infecções pela delta. >
A recomendação é preferir espaços abertos, bem ventilados, com distanciamento social e uso de máscaras de qualidade, coo as do tipo PFF2. >
Em locais em que é preciso tirar a máscara para se alimentar, como restaurantes e bares, é recomendado ficar em local aberto. Também é importante manter distanciamento social de outras pessoas e pôr de volta a máscara sempre que possível para evitar exposição desnecessária. >
Como me proteger da delta em ambientes abertos? >
Espaços abertos criam risco bem menor se comparados a locais fechados, mas a alta capacidade de propagação da delta altera esse cenário. "Nós já temos várias descrições sobre transmissões [pela delta] em ambientes abertos, algo que antes era desprezível para outras variantes", diz Stucchi. >
A recomendação, então, é sempre utilizar máscaras, manter o distanciamento social e higienizar as mãos mesmo em locais abertos e bem ventilados. Nesses casos, além das máscaras de alto poder de filtração, é possível utilizar duas máscaras, sendo uma cirúrgica por baixo de uma de pano, para evitar infecções ao ar livre. >
É seguro viajar de avião? Devo evitar o lanche oferecido e ficar de máscara durante todo o voo? >
Segundo Stucchi, mesmo que os aviões contem com sistemas de renovação de ar que diminuem o risco de transmissão, desde o início da pandemia existem casos de infecção em viagens aéreas. >
É importante sempre utilizar máscaras com alta capacidade de filtragem e retirá-la somente em situações de extrema necessidade. >
Tendo em vista que a variante delta pode levar somente alguns segundos para entrar no organismo, é necessário considerar o comportamento de outros passageiros ao redor para avaliar o risco. >
Quão seguros são ônibus, trens e metrôs para pessoas vacinadas? >
Pessoas completamente vacinadas podem ser reinfectadas, mas raramente desenvolvem formas críticas da doença. Segundo o CDC, somente 0,1 a cada 100 mil pessoas imunizadas que são infectadas devem desenvolver um quadro que demande hospitalização. >
No caso de ônibus, metrôs e trens, os principais pontos que devem ser levados em consideração são a vacinação dos passageiros, máscaras adequadas, ventilação do ambiente, o tempo nesses meios de transporte e a quantidade de pessoas. >
Para Stucchi, um ônibus com as janelas abertas é mais seguro que um metrô com pouca circulação de ar. "No entanto, se você utiliza o metrô, mas por um período curto de tempo, como de uma estação para outra, o risco vai ser pequeno", afirma. >
Posso encontrar meus amigos e familiares? Qual a forma mais segura? Posso abraçá-los? >
Caso seja indispensável, o ideal é encontrar outras pessoas em ambientes abertos, bem ventilados, com todos utilizando máscaras de boa qualidade e mantendo distanciamento social. >
Contatos próximos, como abraços e beijos, com pessoas que não moram na mesma casa não são recomendados. Segundo Stucchi, evitar essa aproximação é mais necessário entre pessoas de grupo de risco ou que já tenham sido imunizadas há mais de seis meses. >
Após ter tomado as duas doses, posso encontrar pessoas não vacinadas ou não totalmente imunizadas? >
As recomendações de proteção são as mesmas: preferir espaços abertos e ventilados, usar máscaras de boa qualidade, manter distanciamento e sempre higienizar as mãos. >
Pessoas vacinadas podem se infectar novamente por qualquer variante e transmitir o vírus para quem não se vacinou. Como a delta tem uma taxa de transmissão mais alta, a chance de uma pessoa vacinada se infectar e contaminar alguém ainda não imunizado existe e preocupa. >
Estudos preliminares em alguns países, como Canadá e Escócia, indicam que a delta pode ser responsável por quadros mais graves da Covid-19 em pessoas ainda não vacinadas. >
Mas, segundo o infectologista Esper Kallás, é difícil avaliar esses dados considerando populações como um todo. "O que sabemos é que há uma aceleração na cadeia de transmissão das pessoas infectadas com delta em relação às outras variantes", diz. >
E se eu perder o prazo para tomar a segunda dose, perco o efeito da vacina? >
A maioria das vacinas contra Covid-19 disponíveis foram desenvolvidas para garantir proteção total com duas doses e apresentam intervalos diferentes para aplicação entre elas. Porém, devido à escassez de doses em algumas cidades, algumas pessoas podem tomar a segunda dose fora do prazo. >
Segundo Kallás, a perda do prazo da segunda dose não elimina o efeito da vacina, pois sempre haverá algum grau de proteção. Ele ressalva, porém, que o grau de proteção com apenas uma dose é menor contra a variante delta. >
"Quão menor vai ser essa proteção ou qual o risco inerente não temos como calcular, porque não é um fator único, depende de quanto risco aquele indivíduo tem. É claro que uma pessoa mais idosa, com maior predisposição a desenvolver doença grave, com algum tipo de imunodeficiência, vai ter um maior risco. Isso vai depender também [do nível da] taxa de transmissão naquela comunidade", diz. >
Kallás defende que haja uma avaliação por parte dos gestores sobre evetual antecipação do calendário das pessoas que receberam apenas uma dose, permitindo que sejam imunizadas totalmente. >
Se a delta é tão contagiosa, faz diferença eu me vacinar? >
A variante delta continua sendo o mesmo vírus que causou a pandemia, com a mesma capacidade de infectar e invadir as células do hospedeiro, diz a imunologista Cristina Bonorino. A diferença é que a delta consegue driblar a proteção conferida pelos anticorpos, seja por infecção natural, seja por vacinação. >
"Em uma pessoa que se infecta com a variante delta, ela consegue burlar a resposta imune muito mais rapidamente, o que faz com que mais cópias do vírus sejam produzidas no organismo, aumentando a chance de aquele indivíduo transmitir o vírus", diz. >
No entanto, apesar de haver maior probabilidade de pessoas vacinadas transmitirem o vírus, Bonorino reforça que as vacinas protegem contra quadros graves da Covid. Dados recentes divulgados pelo CDC mostram que a incidência de mortes em vacinados nos Estados Unidos é de 0,04 a cada 100 mil indivíduos, enquanto a mesma taxa é de 0,96 para cada 100 mil nas pessoas não vacinadas (ou 25 vezes maior). >
Como eu sei se estou infectado com a delta? >
A variante delta já está com transmissão comunitária em diversos estados do país, embora a falta de sequenciamento genômico em massa e uma ação coordenada nacional dificultem saber qual a sua participação nos novos casos. Na última quarta-feira (4), a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro afirmou que a delta corresponde a 45% das amostras analisadas na capital e 26% das do estado. Em São Paulo, um boletim divulgado pelo Instituto Adolfo Lutz (IAL) apontou a delta em 23,5% das amostras sequenciadas no instituto. >
Segundo Kallás, da USP, essas porcentagens não devem balizar estratégias de diagnóstico individual. Até o momento, a identificação da delta e de outras variantes é feita em laboratório por sequenciamento genético ou com a utilização de testes específicos. >
De todo modo, quanto mais aumenta a frequência de uma variante na população, maiores são as chances de os novos casos confirmados decorrerem dela.>
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